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Evitando o naufrágio

Flávio caça vice para evitar ser candidato de si próprio ao Planalto

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Nenhuma campanha presidencial costuma enfrentar dificuldades para preencher a vaga de vice por falta de opções. A política brasileira nunca sofreu escassez de nomes qualificados para compor uma chapa majoritária. Quando essa escolha demora mais do que o esperado, quando negociações se arrastam, partidos preferem a neutralidade e lideranças que pareciam naturalmente integradas ao projeto passam a adiar decisões, a discussão deixa de ser sobre quem ocupará a vaga. Passa a ser sobre o momento político da própria candidatura.

É um fenômeno que se repete com frequência nas eleições brasileiras e que nem sempre aparece nas pesquisas. Enquanto os institutos registram a fotografia do eleitor, partidos e lideranças políticas costumam trabalhar com outra variável: a expectativa. Não se aproximam apenas porque uma candidatura lidera levantamentos ou reúne um eleitorado fiel. Aproximam-se quando acreditam que ela continua expandindo sua capacidade de construir uma maioria política.

Essa distinção ajuda a compreender o momento de Flávio Bolsonaro. O senador permanece competitivo e continua sendo um dos protagonistas da sucessão presidencial. Nada indica que tenha deixado de disputar a eleição em condições reais. Ao mesmo tempo, porém, a campanha passou a conviver com uma sucessão de episódios que alterou o ambiente em torno de sua candidatura e começou a produzir um efeito que, na política, costuma ser percebido antes pelos aliados do que pelos eleitores.

O caso Daniel Vorcaro provocou desgastes inesperados. A crise pública com Michelle Bolsonaro retirou da campanha uma interlocutora importante junto a segmentos estratégicos do eleitorado conservador. Vieram, na sequência, as mudanças no comando da comunicação, a convenção sem um vice definido, a tentativa frustrada de atrair Tereza Cristina, a decisão do PP de permanecer neutro e os sinais de que o Republicanos também prefere manter liberdade de movimento.

Nenhum desses episódios, isoladamente, explica a dificuldade para fechar a chapa. A política, no entanto, raramente reage a fatos isolados. Ela reage ao significado que esses fatos passam a adquirir quando deixam de parecer acontecimentos independentes e começam a compor uma mesma narrativa. É exatamente aí que a vaga de vice deixa de ser apenas um espaço a ser preenchido e passa a funcionar como um indicador do grau de confiança que a candidatura desperta entre aqueles que poderiam ajudá-la a crescer.

A política também conhece seus movimentos de atração. Quando uma candidatura transmite perspectiva de crescimento, divergências tornam-se negociáveis, partidos flexibilizam posições e lideranças encontram razões para caminhar juntas. Quando essa percepção começa a mudar, ninguém rompe de forma espetacular nem anuncia grandes afastamentos. O que acontece é mais silencioso. As conversas continuam, mas as decisões são adiadas. A expectativa de vitória deixa de ser dominante e começa a dividir espaço com a percepção de que o caminho poderá ser mais difícil do que parecia semanas antes.

Esse movimento não é inédito. Sergio Moro experimentou algo semelhante quando sua candidatura presidencial despertou uma expectativa que acabou não se convertendo em estrutura política permanente. O entusiasmo inicial revelou-se maior do que sua capacidade de reunir partidos e construir uma coalizão consistente. Guardadas as diferenças entre os contextos, sua candidatura ao Governo do Paraná enfrenta hoje um desafio parecido. Continua competitiva diante do eleitor, mas já não consegue agregar partidos e lideranças na velocidade que o cenário sugeria no início da disputa.

Flávio Bolsonaro pode perfeitamente reverter esse quadro. A campanha ainda está no início e a política brasileira oferece inúmeros exemplos de mudanças de rumo produzidas por fatos inesperados. O ponto, porém, não está em antecipar resultados eleitorais. Está em observar um fenômeno que costuma antecedê-los.

As pesquisas revelam o presente. As alianças, muitas vezes, antecipam tendências.

É por isso que o anúncio do vice, quando acontecer, resolverá apenas uma exigência do calendário eleitoral. A dúvida que realmente importa permanecerá aberta, porque ela já não diz respeito ao nome escolhido, mas à capacidade da candidatura de recuperar aquilo que faz uma campanha crescer politicamente: produzir expectativa, ampliar seu campo de alianças e convencer outras lideranças de que vale a pena compartilhar o mesmo projeto.

Na política, ninguém aceita integrar uma chapa apenas para ocupar um lugar. Aceita porque acredita que aquele projeto pode levá-lo mais longe do que iria sozinho. Quando essa convicção começa a desaparecer, a vaga ao lado do candidato deixa de ser o verdadeiro problema. O problema passa a ser a dificuldade de convencer outras forças políticas de que ainda existe um caminho coletivo a percorrer.

É nesse momento que uma candidatura continua competitiva, preserva sua base eleitoral e permanece viva na disputa, mas começa, pouco a pouco, a depender menos de uma coalizão e cada vez mais da força do próprio candidato.

É assim que nasce um candidato de si próprio.

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