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Detalhes da idade

Bom do idoso é trocar conselho por tarja-preta

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Para muitos, a idade é apenas um número. Pena que, no meu caso, esse número é muito alto. O tempo passou rápido demais para mim. Então, fiquei velho? Velho, não. Experiente. Com certo orgulho, vejo que hoje meu corpo é um templo. Às vezes em ruínas, mas um templo. E o que é a velhice? Nada mais do que o momento em que começamos a trocar os conselhos por remédios controlados. Tudo isso como uma boa pitada de humor. A idade avançada pelo menos melhorou minha capacidade de ignorar o que não me interessa.

Tenho ojeriza desse tal de tempo. Os anos têm passado tão rápido que, quando me dou conta, esqueço o que estava fazendo. Enfim, o lado bom da velhice é que a gente para de se importar com o que os outros dizem. O lado ruim? É que também não conseguimos lembrar o que eles disseram. Se querem mesmo saber, cheguei à idade do esse: o cabelo embranquece, a barriga cresce, o bilau amolece e o sexo desapetece. Para o povo da elite, a terceira idade é sinônimo de mineral: prata no cabelo, ouro no dente e chumbo no pinto. Tem coisas muito piores.

Graças a Deus, não sou e nem me pareço com vinho. Portanto, a idade é apenas um detalhe. Sou daqueles que só descobriu que a velhice havia chegado quando as velas ficaram mais caras do que o bolo. O lado prático do passar do tempo é que, além da generosa e mentirosa coleção de histórias, acumulamos cicatrizes e desculpas das mais variadas para ir embora cedo. Como perco o amigo, mas não a piada, posso ter começado a morrer na idade, mas não perdi o entusiasmo.

Muito pelo contrário. Pego no tranco, mas, quando pego, viro uma fera na cama: urino para marcar território. Ou seja, tô igual chuveiro velho: não ligo e, se ligo, não esquento. Quanta saudade dos idos tempos da juventude plena e viril. Eu era muito jovem para ter um carro. Por isso, depois de bater bafo com a rapaziada, no melhor estilo Woody Allen, eu transava com as moças no banco de trás de minha bicicleta Caloi. E não havia tempo para negociações, tampouco pedidos de paciência ou de redução de jornada.

Preocupado com a máxima de que o amor é esgotável, não perdia nenhuma oportunidade. Nem precisa torcer ou rezar o terço para o pescocinho de frango decolar com a rapidez de um raio. Daí para frente era pura emoção até alcançar a porta da gaiola da moçoila. Nas atuais rodas de amigos e amigas, basta tentar fazer cara de sexy para que eu mesmo tenha a certeza de que fiquei velho. Ninguém ri, mas as pessoas em volta pensam que estou tendo um AVC. Que pena! Difícil não lembrar que o Mar Morto estava gripado no dia em que completei a terceira idade.

Custou, mas envelheci. Nada mais por fazer. Se meu sonho na juventude era ser velho e rico, metade eu já consegui. Me tornei um clássico e não lamento e nem me entristeço. Afinal, esse é um privilégio negado para muitos. Só não gosto quando dizem que, com a idade, vem a sabedoria. Eu só queria saber onde foi parar a minha. Pouco importa. Aprendi com os filósofos que, na velhice, os passos são lentos porque carregamos uma criança, um jovem e um adulto na própria história. Por fim, meu corpo sabe quanto anos eu tenho, mas a minha mente se recusa a acreditar. Sem ponto final.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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