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Sonho dourado

Tempo do Tremendão de brilhantina e vaselina, sem precisar de sildenafila

Publicado

Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Saudades dos tempos da brilhantina, também conhecido como ânus dourados. Nesse período de efervescência cultural, de endurecimento político e de plenitude física, emocional, espiritual e sexual, me descobri “muso inspirador” (sem viadagem, é claro) de astros da Música Popular Brasileira, entre eles Roberto Carlos, Eduardo Araújo, Cyro Aguiar e, mais recentemente, o Blitz Evandro Mesquita. Cada um deles moldou um perfil todo especial para o narrador que vos escreve.

Com o rei do iê iê iê, o Brasa dos brotos e das gatinhas manhosas do início dos anos 60, fui O Feio. Estimulado pelo Tremendão Erasmo Carlos, Roberto escreveu sobre o paradoxo de um cara feio, esquisito, narigudo, cumprido e calçando 54, mas cheio de garotas. O tal sujeito que incorporei no auge de minha adolescência era careca, sisudo, bicudo e parecia um toco quando estava de pé. Conforme os traços levantados pela dupla Roberto e Erasmo, o vasto narigão do camarada parecia um pimentão.

Sorrindo, ele lembrava um temporal desabando. Entretanto, ele tinha molho. Segundo minha atenta mãe, era o que eu tinha. Embora feio como a noite chuvosa, as garotas do bairro viviam a suspirar por mim. Narcisista como o Diabo de rabo curto, custei a acreditar que os feios também podem amar e, principalmente, ser amados. Desse modo, eu consegui seguir o exemplo de Cyro Aguiar e também me transformei na Loucura das Garotas. Como? Eu não sei! Tampouco sabia a razão de causar tanta sensação entre as virgens e as balzaquianas mal-amadas do bairro.

O que sei é o que sabia Cyro Aguiar. Ele e eu não tínhamos carro nem lambreta, nem ao menos romi-isetta. Dinheiro, nem pensar. Muito mais do que o cantante, me achava meio sem sal, muito pouco original e nem dançar eu sabia. Então, Cyro me perguntava e eu buscava na verve de Cyro uma única razão para que as meninas, moçoilas e moças já usadas quisessem tanto um namoro comigo arrumar. Não era um pão, muito menos um galã de folhetins. Muito pelo contrário. Eu tinha uma cara de tarado, o coração gelado e sequer sabia beijar.

E daí se, mesmo de posse de um monte de predicados negativos, elas faziam fila para um beijo meu receber. Foram tantos que, com o passar do tempo, já não sabia mais o que fazer com tantas garotas querendo me pertencer. Do tipo O Bom, com o cabelo na testa, eu era o dono da festa. Entre os dentes, dizia às incautas que, caso experimentassem, certamente iriam gostar. Como ter muitas garotas era um fato normal, o comentário sempre foi geral. Exageros à parte, a verdade é que abandonei os cinemas, esqueci a praia e larguei o futebol, pois em qualquer um desses locais os brotos queriam me agarrar.

Acordei desse sonho lindo ao perceber que estava “longe de casa há mais de uma semana e milhas e milhas distante do meu amor”. Estava a dois passos do paraíso, mas preferi dizer bye, bye para esses sonhos loucos com as “mariposas apaixonadas de Guadalupe”. Meu Deus! Não me imaginem como Arlindo Orlando, o caminhoneiro noivo e desaparecido. Nossa parecência talvez se limite aos faróis baixos e ao para-choque duro típico de um Moranguinho do Nordeste. Nada mais. Dito isto, não preciso dizer coisa alguma.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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