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Porto Seguro

O abadá que eu nunca usei

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Nosso aniversário de namoro tinha destino certo: Porto Seguro.

E não era qualquer viagem. Era um daqueles eventos pré-carnavalescos bombásticos, com abadá, música, gente bonita e a promessa de um fim de semana inesquecível.

Eu já estava no clima. Mil planos na cabeça. Abadá personalizado. Contagem regressiva.

Só esperando a semana acabar para correr, pegar a mala e embarcar.

O voo foi tranquilo. Eu estava acabada, daquelas que sobrevivem o dia inteiro só na força do ódio e da ansiedade, mas ainda tinha um restinho de combustível reservado para a noitada.

Chegamos ao hotel.

Tudo certo.

“Vou tomar um banho rapidinho e depois você me chama”, pensei. Deitei.

Apaguei.

Quando acordei, já eram quatro da manhã. Olhei para o lado…

Cadê o mozão? Cadê meu abadá? Cadê a criatura?

A porta estava trancada por dentro, mas não havia sinal de vida. Liguei para a recepção e pedi ajuda.

Perguntei se tinham visto meu namorado.

A resposta veio tão natural que até hoje me faz rir de nervoso.

— Ah… ele saiu com a namorada. Silêncio.

Como assim?

Eu não era a namorada?

Porque, até onde eu sabia, eu estava dormindo no quarto. Foi aí que as peças começaram a se encaixar.

O cidadão já tinha tudo planejado.

Levou a amante para Porto Seguro também. Confesso que, por alguns segundos, pensei em sumir. Dar o troco.

Estragar o roteiro dele.

Mas existe uma característica curiosa em algumas cancerianas: antes de fazer escândalo, a gente quer entender até onde vai a coragem do infeliz.

Esperei.

Uns vinte minutos depois ouvi passos no corredor. Corri para a cama.

Fechei os olhos.

Fingi dormir.

Ele entrou na ponta dos pés.

Foi ao banheiro.

Tomou banho.

Deitou ao meu lado como quem tinha acabado de voltar de uma meditação transcendental. E eu ali…

Imóvel.

Fervendo.

Ensaiando mentalmente umas cinquenta formas diferentes de resolver aquilo na base do soco. Mas, no meio da minha raiva, um pensamento atravessou a minha cabeça:

“Já vim até o paraíso… vou desperdiçar a viagem por causa de um canalha?” Às seis da manhã levantei.

Tomei banho. Me arrumei. Acordei o bonito.

— Amor, tu foi e nem me chamou? Chegou que horas?

Ele respondeu com a maior cara de boi sonso que já vi na vida.

— Nem demorei. Você capotou. Fiquei com pena de te acordar. Quase bati palmas.

O Oscar de Melhor Ator podia ser entregue ali mesmo. Sorri.

Respirei fundo. E respondi:

— Maravilha! Então vamos. Já estou pronta para a trilha. E fomos.

O restante do domingo foi incrível. Passeamos.

Rimos.

Gastamos horrores.

Conhecemos lugares lindos.

Em determinado momento cruzamos com um casal.

A moça, linda por sinal, não tirava os olhos do meu “gato”. Até perceber que eu também não tirava os meus… dela.

Ela desviou o olhar na mesma hora. Achei curioso.

Hoje penso que talvez ela também estivesse vivendo alguma história parecida. Na segunda-feira voltamos para o Rio.

Assim que entrei em casa, coloquei minhas malas no chão, agradeci pela viagem e disse apenas:

— Tchau.

Ele me olhou sem entender.

Ou fingindo não entender.

Pouco importa.

Peguei minhas coisas.

Fechei a porta.

E nunca mais nos encontramos.

Porque viajar com um mentiroso pode até render uma boa crônica. Mas papel de palhaça…

A gente só aceita fazer uma vez.

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