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O silêncio

Juarez e os deuses

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

“Os deuses estão raivosos. De sua lei, sabemos apenas o castigo.” (Santana da Terra, personagem de Os deuses e os mortos)

Sabem o filme Os deuses e os mortos, de Ruy Guerra, lançado em 1970, em que cadáveres, anjos e encantados repartem o espaço, imóveis e em silêncio absoluto, com os viventes? Juarez sabia, e tinha uma opinião nada ortodoxa sobre a película: “Apesar de sua poesia delirante, esse aspecto o desloca do gênero ficção para documentário”.

Juarez tinha sólidos fundamentos para sua opinião. Acordara certa manhã, após uma noite mal dormida, de pesadelos semiesquecidos, fora ao banheiro, depois tomara um banho rápido e, ainda tonto de sono, dirigira-se à cozinha para passar um café. Ao cruzar a sala, ele os viu: dezenas de entidades da umbanda e do candomblé, em silêncio mortal, olhando fixo para ele.

— Sa… salve quem veio em paz… — balbuciou, tratando de resguardar-se.

Nenhuma resposta, nenhum movimento. Foram a imobilidade e o silêncio que o fizeram recordar o filme de Ruy Guerra. Respirando fundo, começou a examinar aquelas figuras. Em uma mescla de egrégoras, as divindades do panteão iorubá aparentavam uma majestade e uma tranquilidade olímpicas. Reconheceu alguns deles pelas vestimentas e objetos rituais, entre eles Oxalá, todo de branco, e Xangô, com seu machado de duas lâminas. Pensou em saudá-los com as palavras Epa babá e Kaô Kabecilê, de reverência a esses dois orixás, mas havia muitos outros deuses presentes, se homenageasse os dois teria de fazer o mesmo com todos, achou mais prudente guardar silêncio.

Já as entidades da Umbanda pareciam mais próximas dele, como se estivessem prestes a falar, a quebrar aquela imobilidade inquietante. Saudou um velho conhecido, Zé Pelintra, murmurando baixinho “Salve a malandragem”. Por um momento, esperou que o encantado respondesse com uns passos de dança, como costumava fazer, mas o rei dos malandros limitou-se a esboçar um sorriso quase imperceptível.

“Um sorrisinho…a coisa não deve estar tão feia…”, pensou, com uma pitada de alívio.

Afinal, o silêncio incômodo foi quebrado por Juarez.

— Bom, tenho de ir pro trabalho, fiquem à vontade — e saiu.

Felizmente, Juarez não teve companhia sobrenatural enquanto trabalhava. Ao entrar em casa, porém, materializou-se a seu redor nova leva de entidades, entre as quais numerosos exus e pombagiras. Ele chegou a ter saudade da imobilidade olímpica dos orixás: os recém-chegados mantinham o silêncio, mas dirigiam-lhe olhares zombeteiros e desafiadores, como se prometessem um confronto que acabaria com ele. O pior é que começou a ouvir, baixinho, um rosnado em coro, que parecia emitido pelos exus de aparência mais ameaçadora.

“Meu exu, me proteja!”, pensou, à beira do desespero.

Aparentemente, deu certo, o coro silenciou.

E assim vive Juarez. Em casa, está sempre rodeado de entidades, nunca menos de quatro. Jamais ousou lhes perguntar por que se materializaram ali e o que desejam, teme as respostas que poderia receber. Pensa sempre no filme de Ruy Guerra e lembra que, junto aos humanos e entidades, havia um sem-número de cadáveres, vítimas das guerras do cacau, no sul da Bahia.

“Por enquanto, somos eu, os deuses e os encantados. Quando as carcaças começarem a se materializar, lascou”, murmura toda noite, antes de mergulhar num sono inquieto, cheio de pesadelos.

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