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Vozes da Literatura

Carlos Roberto de Souza e a luta pela memória do cinema de Machado-MG

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Fotos Arquivo Pessoal

“Mineiro de berço, paulistano de coração.” É assim que se define Carlos Roberto de Souza, o entrevistado desta semana na coluna Vozes da Literatura. Nascido em Machado, no Sul de Minas, Carlos viveu mais de três décadas na capital paulista antes de retornar às suas origens, onde trocou o papel de mero observador da cultura pelo de um ativo operário da memória local. Aos 62 anos e aposentado, ele transformou o olhar curioso sobre o passado em pesquisa rigorosa, tornando-se o cronista visual e literário da história do cinema de sua cidade natal através do projeto Machado na TV e de publicações viabilizadas por leis de incentivo à cultura.

Nesta conversa franca, o pesquisador compartilha os desafios de produzir conteúdo cultural profundo e independente em 2026, resistindo ao imediatismo das redes sociais e à ditadura dos algoritmos. Longe de buscar o entretenimento rápido, Carlos encara seu trabalho como um “investimento a longo prazo” para as próximas gerações e desabafa sobre o desafio quase intransponível de despertar o hábito da leitura e valorizar a história oral. Acompanhe as principais reflexões deste inesquecível bate-papo cultural.

Carlos, fale um pouco sobre você para que nossos leitores possam conhecê-lo melhor.

Meu nome é Carlos Roberto de Souza. Nasci em 1964 na cidade de Machado-MG. Em 1966 eu e meus partimos para a capital de São Paulo onde morei 33 anos. Em 1995 retornei para minha terra natal, onde em 2004 passei a pesquisar sobre a trajetória do Cinema local.

Olhando para a trajetória do Machado na TV, o canal cumpriu o propósito para o qual foi criado ou a interação com a comunidade o transformou em algo que você não previu no início?

O Canal Machado na TV vem cumprindo o propósito de divulgador da Cultura local. A interação com o cidadão machadense foi se “solidificando” Gradativamente. Contudo, este objetivo não pode fazer parte apenas de um momento de euforia, mas de uma luta constante também.

Em um cenário de conteúdos cada vez mais rápidos e superficiais, como você define a linha editorial do canal hoje e como consegue manter a profundidade sem perder o engajamento?

Hoje em dia as notícias seguem uma linha mais dinâmica. Entretanto, eu não posso editar drasticamente os depoimentos de um entrevistado. Para mim seria um desrespeito à sua trajetória. Faço o possível para que o conteúdo prenda a atenção do expectador. Quando sou abordado por uma pessoa afirmando que apreciou o modo como tudo foi conduzido, eu sinto que cumpri meu objetivo.

“A tarefa de manter um canal cultural não é nada fácil”

Você percebe que o público que consome seus vídeos migra naturalmente para a leitura de seus livros, ou você sente que lida com dois grupos de admiradores distintos?

São dois grupos distintos. Um bom número de pessoas me conhece pelos vídeos de cunho cultural (histórias e curiosidades). Com relação aos meus livros, eu ainda preciso vencer essa barreira quase intransponível do despertar pela leitura por parte do público machadense.

Recebendo o troféu Carlos Drummond de Andrade em Itabira-MG, em 2011

Como é o desafio de manter um canal intelectual e independente em 2026 sem se tornar “refém” das métricas e das constantes mudanças de algoritmo das grandes plataformas?

Hoje em dia, a maioria dos canais se tornaram reféns do algoritmo. Não refuto que o meu objetivo é angariar uma grande quantidade de seguidores. Todavia, eu não posso me tornar um lacaio das novas tecnologias. Tenho que saber usá-las de forma saudável sem que isso custe os meus neurônios.

Até que ponto o feedback direto, os comentários e as interações no Instagram, no Facebook e no YouTube moldam as pautas dos seus próximos vídeos?

Todos os comentários são lidos e filtrados. Aqueles que contêm boas sugestões são analisadas para uma futura matéria. A maioria das sugestões aborda novas personagens dignas de valorização sociocultural.

Você percebe que o público que consome seus vídeos migra naturalmente para a leitura de seus livros, ou você sente que lida com dois grupos de admiradores distintos?

Eu lancei um livro de poemas em 2008, e outro sobre contos de terror em 2026. São temas totalmente opostos. O mesmo ocorre com o público do Machado na TV que busca conteúdos diversos. Não obstante, creio que 90% do público não se relaciona com os livros que lancei.

Como foi transpor a história física de Machado (como a do Cine Limeira) para o formato de vídeo e redes sociais? Houve resistência ou aceitação imediata?

Não foi difícil. O público está buscando cada vez mais as mídias digitais. Esse quadro atual me forçou a deixar de lado a mídia impressa, mesmo sabendo que uma pequena parte do público ainda a aprecia. Por uma questão — principalmente — de custo, tive que transpor para as redes sociais. Confesso que gostei muito dessa nova mudança.

Como você gerencia o pragmatismo necessário para manter um canal ativo e com a introspecção necessária para sua vida de escritor?

Eu sempre tento manter o canal atraente tanto para os antigos, quanto para os novos seguidores. As entrevistas abordam as personalidades de ontem e de hoje. Cada uma dentro do seu universo. Lidar com as pessoas de todas as gerações, fomentam a minha inspiração como escritor.

O Machado na TV funciona como um termômetro para os temas que você decide explorar mais tarde em suas obras literárias?

Sim, através dele posso descobrir nas pessoas, uma fonte inesgotável de novas ideias e projetos.

Veremos novos formatos no canal este ano, como podcasts ou entrevistas?

O formato, pelo menos por enquanto, não terá nenhuma mudança em específico. Na verdade, só o tempo poderá dar um norte para alguma mudança, caso seja necessário.

Como você gostaria que o Machado na TV fosse lembrado pelas próximas gerações de machadenses: como um veículo de notícias, entretenimento ou um arquivo histórico?

Eu gostaria que o Machado na TV fosse lembrado como um dos grandes catalisadores culturais que contribuiu para a divulgação e valorização do indivíduo (parte integrante deste universo chamado Cultura).

Por que a escolha de Agamenon Troyan? Esse pseudônimo representa uma espécie de “armadura” para tratar de temas que o Carlos Roberto comunicador não abordaria?

Eu sou louco por mitologias, principalmente a grega. Agamenon era o rei da cidade de Micenas, inimiga de Tróia. E Troyan é a forma inglesa de troianos.

Recebendo a Medalha de Honra ao Mérito Dr. Carlos Alberto Nogueira

O que o escritor Agamenon Troyan consegue dizer nas páginas dos livros que o apresentador do canal prefere calar diante das câmeras?

Não, Agamenon Troyan é apenas um nome artístico que escolhi para representar os meus momentos de inspiração literária. Agamenon Troyan é uma  personagem da minha literatura; enquanto que Carlos Roberto de Souza é a minha verdadeira representação no ambiente jornalístico.

“O anjo e a tempestade”, primeiro livro de poesias do autor, Editora Nelpa, 2008

Sobre sua obra, como o embate entre a calma (o anjo) e o caos (a tempestade) reflete o seu momento criativo em 2026? A “tempestade” digital ajuda ou atrapalha sua escrita?

O Anjo representa simbolicamente a minha calma, enquanto a tempestade implica minha luta constante para estar ao lado das inspirações. A Tempestade digital incentiva-me a lidar com o desafio de uma nova obra literária.

Existe um ambiente ou horário específico que marca a sua transformação de apresentador em romancista? Como você “limpa” a mente da comunicação diária para entrar na ficção?

Não, essas mudanças não seguem um padrão específico. Creio que carrego as duas essenciais constantemente: a do escritor e a do agente cultural. Dependendo do que estou abordando, cada uma delas fala mais alto.

O que o Cine Limeira representava para você e como o sentimento de perda desse patrimônio se transformou na energia necessária para concluir a Revista do Cinema Machadense?

O Cine Limeira representa o triste e real quadro do desmantelamento e negligência para com as antigas salas de cinema. Quando ouvi a respeito desse prédio erguido em 1941, senti-me na obrigação de resgatar a sua trajetória. Após um ano coletando depoimentos, pude lançar a primeira edição da Revista do Cinema Machadense em 2005.

Revista do Cinema Machadense

A Revista do Cinema Machadense, de sua autoria, recebeu muitos elogios dos escritores Daniel Marchi e Eduardo Cesario-Martínez. Como foi o acolhimento do público em relação a esse trabalho, que serve como material de pesquisa para historiadores e apaixonados por cinema, bem como para quem trabalha com a sétima arte?

O acolhimento foi incrível. Recebi vários elogios, principalmente das pessoas e instituições ligadas ao cinema, teatro e televisão. Todos receberam um exemplar.

Após tanta pesquisa sobre o cinema em Machado, você sente que sua escrita de ficção se tornou mais “cinematográfica” ou visual na forma de descrever cenas?

A minha mente passa por um processo simples de relaxamento. Tento não misturar estações. Na ficção, eu posso fingir; na realidade, tenho responsabilidades que não posso negligenciar.

Comparando seus primeiros textos com suas publicações de 2025/2026, onde você percebe que sua voz literária se tornou mais madura ou audaciosa?

A revista ajudou a moldar o escritor que sou hoje. Quando lido com assuntos culturais, a minha concentração fica mais aguçada.

Quanto do cotidiano de Machado (MG) e das histórias reais que chegam até você como comunicador acaba sendo transmutado em ficção em seus livros?

Quando concluí meu segundo livro de suspense e terror intitulado Fantasmagórico. Deste dia em diante, passei a desafiar um gênero que somente preenchia minha imaginação através dos antigos filmes da Hammer e Universal.

Qual é o segredo para o jovem que te acompanha no Machado na TV encontrar sua própria “voz literária” e manter a autenticidade em um mercado tão saturado de tendências?

O segredo é olhar para si mesmo e descobrir o quanto o ser humano é incrível! Com ótimas ideias, poderemos transformar a Terra em um mundo melhor.

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Link de venda do livro Fantamasgórico: https://www.amazon.com.br/Fantasmag%C3%B3rico-Agamenon-Troyan/dp/658361460X

Vídeo no Youtube no lançamento da Revista do Cinema Machadense: https://www.youtube.com/watch?v=5U2oqOyU7ds

Vídeo no Youtube do Carlos Roberto de Souza em momento de Louis Armstrong: https://www.youtube.com/watch?v=ArGMxghzCLk

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