Curta nossa página


Vida de sonho

O reino e minha rainha

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Acordei no meu palácio dourado, cercado de guardas e serviçais. Um deles calçou-me os sapatos, enquanto os outros me aguardavam. Ia visitar teus aposentos, contei-lhes. Queria ver minha rainha; era uma bela manhã. Tua aia perguntou-me se iríamos cavalgar. Havia, no entanto, embaixadores a receber e credenciais a examinar. Cheguei à tua câmara depois de percorrer o longo corredor, e já estavas desperta, tão linda em teus trajes leves e matutinos. Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

Acordei, no entanto, havia sido um sonho.

Na realidade, eu era mestre-escola jubilado de um seminário que já não existia. E tu, minha companheira querida, velavas meu sono ao lado da velha cama de alto dossel e dourados gastos, no quarto em que nos recolhíamos havia tantos anos.

— Vem, meu velho — disseste-me com ternura. — Veste o chambre, que o café já está na mesa.

Olhei teu sorriso, teus olhos tornados cinzentos pelo tempo, mas nunca diferentes daqueles que eu vira na primeira vez. Continuavam exatamente os mesmos. E tanto amor eu sentia naquela casa tão fria, onde repetíamos todas as manhãs os nossos pequenos rituais.

Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

Acordei, no entanto, havia sido um sonho.

Era eu, naquela vida, um pobre artesão. Morava ao lado da vasta oficina, numa habitação modesta. O cheiro dos vasos de barro, prontos para cozer, era para mim perfume.

Levantei-me do catre e percebi, pelo vazio nos rotos lençóis ao lado, que minha companheira não estava. Saí à tua procura e descobri, com alegria, que já colocavas os vasos no forno que eu mesmo acendera na véspera.

Olhaste-me espantada.

— Homem, volta para o leito. Tua saúde é fraca e ainda não estás direito.

Foi então que senti uma grande fraqueza e um frio que me atravessou o corpo. Compreendi que estava muito adoentado e que talvez aquela fosse a última vez que atravessava a oficina, respirava o barro úmido e te encontrava trabalhando.

Voltei ao repouso sabendo, no entanto, que brava consorte eu tinha. Perto de minha morte, tive a certeza de que resistirias, ainda que sozinha. Entreguei-me ao torpor que me subia e, pouco a pouco, deixei de sentir o frio.

Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

Acordei, no entanto, havia sido um sonho.

Era médico de uma aldeia distante, cercada por campos de trigo e caminhos que, durante as chuvas, se transformavam em lama. Uma epidemia havia chegado durante o inverno. As casas permaneciam fechadas, os sinos dobravam todos os dias e já não havia família que não temesse pelo amanhecer.

Caminhavas ao meu lado pelas ruas desertas. Entrávamos juntos nas casas, examinávamos os doentes, lavávamos as feridas e preparávamos remédios. Enquanto eu escutava os peitos febris e procurava reconhecer os sinais da doença, tu fervias os panos, refrescavas as crianças e ensinavas às mães como proteger os que ainda não haviam adoecido.

Dormíamos pouco. Muitas vezes, ao sairmos de uma casa, encontrávamos alguém à porta esperando por nós. E seguíamos, lado a lado, sem perguntar quanto faltava para o dia nascer.

Quando finalmente a epidemia começou a ceder, a aldeia inteira veio nos receber à pequena praça. Os sinos, daquela vez, não dobravam pelos mortos. Tocavam pelos vivos.

Olhei para ti, tão cansada quanto eu, com o vestido manchado e os cabelos presos de qualquer maneira. Nunca me pareceste tão bela.

Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

Acordei, no entanto, havia sido um sonho.

Éramos saltimbancos de um circo itinerante. Viajávamos em carroças velhas, dormíamos sob a lona remendada e nunca sabíamos em que cidade estaríamos na semana seguinte. Algumas noites nos davam moedas, noutras, apenas pão, frutas e um lugar onde pastassem os animais.

Eu entrava no picadeiro com um chapéu enorme e sapatos que pareciam pertencer a outro homem. Tropeçava, caía, perdia as calças e fazia as crianças gritarem de tanto rir. Tu surgias logo depois, equilibrando-te sobre uma corda, leve como se o ar te sustentasse. No fim do número, fingias que também cairias, apenas para aterrissar sobre mim e aumentar ainda mais a gargalhada do público.

Éramos pobres e felizes. Quando a apresentação terminava e as luzes se apagavam, sentávamo-nos atrás da lona, dividíamos o jantar e ouvíamos, ainda ao longe, as crianças tentando repetir nossas brincadeiras.

Não tínhamos casa, terras ou nome. Nosso reino durava o tempo de cada espetáculo e cabia inteiro dentro daquela lona.

Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

Acordei, no entanto, havia sido um sonho.

Abri os olhos devagar.

Não havia palácio, aldeia ou circo. O quarto estava quase escuro, e a primeira luz da manhã atravessava uma pequena abertura entre as cortinas.

Estavas deitada ao meu lado, ainda adormecida. Tua respiração era tranquila. Uma de tuas mãos repousava sobre o lençol, muito perto da minha.

Não disse nada.

Aproximei minha mão da tua e permaneci imóvel, ouvindo tua respiração, sem desejar estar em nenhum outro lugar e sem desejar despertar em nenhuma outra vida.

Oh, minha rainha, mulher amada, como seria sem ti o meu reino?

………………….
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de “A Verdade nos Seres” (poesia, 2024) e “Território do Sonho” (contos, 2026). No Instagram: @prof.danielmarchi.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.