Curta nossa página


Seu Urias

O gosto do Marcos Rey

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

— Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

— Carlinho, isso não é verdade.

— A senhora gosta dele?

— Eu?

— É.

— De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

— Muita gentileza sua. Carlinho, né?

— Sim, senhor.

— Filho da dona Joana, né?

— Sim.

— Boa mulher. Você é um menino de sorte.

Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

— Ah, entendi. Hombridade, né?

Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

— Gosta do Marcos Rey?

— Quem?

— Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

Seu Urias me entregou aquele exemplar de “O mistério do cinco estrelas”. Um tanto gasto, para dizer a verdade.

— Carlinho, livro bom é livro carcomido.

Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

— Sim, senhor.

— É seu, mas tem uma condição.

Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

— E qual é a condição, senhor?

— Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

— Combinado.

Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

Perdi a hora, mamãe me gritou:

— Carlinhos, o almoço tá pronto!

Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

— Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

— Marcos Rey, mamãe.

— O quê?

— Foi o Seu Urias que me deu.

— E o que aquele velho queria com você?

— Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

— Hum!

Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

Terminei de ler “O mistério do cinco estrelas” na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

— Foi pra onde, mamãe?

— Morreu, Carlinhos. Morreu.

Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.