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Os matreiros

Político-lagartixa brasileiro vai virar sobremesa de jacaré

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Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto Editoria de Imagem/IA

Eu não vi. Meus contemporâneos e antecessores também não viram. Será que meus netos e as futuras gerações verão o Brasil com políticos sérios, éticos, com dever público, responsabilidade social e capazes de cumprir pelo menos 0,5% do que prometem durante suas campanhas? Será que eles conseguirão sobreviver às ilegalidades em série que os políticos produzem antes, durante e depois de eleitos? Conforme a maioria dos pensadores brasileiros de ontem e de hoje, provavelmente jamais alcançaremos a glória política.

É impossível não concordar, por exemplo, com a tese de Joaquim Nabuco, para quem a classe política parece ter contraído a faculdade de se tornar insensível diante da miséria alheia. Traduzindo para os dias de hoje, pouca coisa mudou na cartilha de intenções das excelências do Congresso Nacional e dos parlamentos estaduais e municipais que brotam no território brasileiro. Em outras palavras, farinha pouca, meu pirão primeiro.

Na linguagem de nossos supostos representantes, quem não vê cara não vê que horas são. Por isso, garantidos os dez por cento de qualquer negociação com dinheiro público, a fartura de emendas parlamentares e as vantagens do poder, o povo que se exploda. Chico Anysio e seu personagem Justo Veríssimo partiram sem que os incriminados conseguissem se defender. Mesmo perdendo a eleição, a maioria permanece na ativa ilegal. Que o digam os ex-deputados Valdemar Costa Melo e Eduardo Cunha.

São os chamados “políticos matreiros”, considerados os gatos da humanidade. Segundo Bastos Tigres, jornalista, poeta e grande humorista do século passado, os políticos arvorados em condutores de povos lembram os antigos condutores (trocadores) de bonde: eles apenas coletavam o dinheiro, enquanto o veículo segue à revelia deles. Conforme trecho do livro Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, esses tipos “dão toda a sorte de pulos, e sabem muito bem como cair de pé”.

Resumindo, me utilizo de uma frase de Lima Barreto para definir todos os que dependem da ingenuidade e da incredulidade popular para se perpetuarem como incapazes de ter princípios “ou habituados a não conhecê-los, senão para os violar”: “Os políticos não pretendem nunca realizar o que a política prega e supõe”. Nesse louco contexto entre o eleitor preterido e os interesses do eleito, não é difícil compará-los lembrando uma expressão do Barão de Itararé: “O lagarto é uma lagartixa que não chegou a jacaré”.

É improvável, talvez irrealizável, mas torço para que a Pátria ainda gere políticos sem aquele vício secreto e inveterado sempre criticado por Rui Barbosa: a “insinceridade profissional”. Na verdade, minha maior torcida é que os inocentes úteis acordem, se toquem e leiam os filósofos Albert Camus e Epicuro. Para o primeiro, a política é constituída por homens sem ideias e sem grandeza. Mais pragmático e objetivo, Epicuro sugere que nada é suficiente para quem o suficiente é pouco. Como para bom entendedor meia palavra basta, os políticos conhecem a fundo a arte de transformar palavras em máscaras. Não há melhor exemplo para demonstrá-lo do que os discursos vazios e sem sentido da maioria deles que, mesmo assim, continuam sendo eleitos e reeleitos. A gene merece o que tem.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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