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Namorada do ginásio

O fantasma de Luana

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

A vida adulta é implacável. Não há conto de fadas que resista.

— Eu te amo e nunca mais vou deixar de te amar.

Álvaro, cigarro entre os dedos, foi tomado pela lembrança da frase dita por Luana, antiga namorada do ginásio. Aquele “nunca mais vou deixar de te amar” não durou um verão. A garota trocou o então adolescente cheio de espinhas por Marcos, um tipo que parecia saído de uma série de TV dos anos 1980. Deu a última tragada e amassou o cigarro no cinzeiro ao lado. A pele havia melhorado com o passar dos anos, mas a mágoa continuava alojada.

— Oi, amor. Já acordou?

O sujeito voltou os olhos para a esposa e fingiu o sorriso costumeiro.

— É. Muita coisa pra fazer hoje. O escritório está me sufocando.

— Vem cá. Deita aqui que faço uma massagem pra você relaxar.

Sem maiores desculpas, Álvaro se deitou ao lado da esposa. As mãos de Lúcia começaram pelos ombros.

— Nossa, amor! Você está tão tenso.

— É o trabalho, Lúcia. É o trabalho.

Álvaro não conseguiu afastar Luana dos seus pensamentos. Mandíbula travada, ele continuou remoendo o passado: “Cretina! Aposto que se casou, teve uma penca de filhos, engordou, o marido a largou por uma novinha. Bem feito!”

— Está gostando, amor?

— Muito. Você tem mãos maravilhosas.

— Você acha mesmo?

— Sim, Lúcia.

As mãos de Luana, macias, dedos longos, dedos de pianista. Álvaro se lembrava do toque suave da antiga namorada. Ela costumava despentear os cabelos dele.

— Por que você sempre faz isso?

— Ah, Álvaro, você é muito certinho. Até parece um filhinho da mamãe.

Filhinho da mamãe. Era disso que Luana o chamava. E ela o trocou por aquele cara de cabelos de comercial de xampu. E aquele sorriso? Qual o sentido de um adolescente possuir dentes tão perfeitos? Álvaro ainda carregava o fantasma da comparação.

— Lúcia, os meus dentes são feios?

— Não.

— Verdade?

— Bem, amor, se você parasse de fumar, os seus dentes ficariam menos amarelados.

Por que a esposa precisou ser tão sincera? Que mentisse! Que dissesse que os dentes do marido eram lindos ou, ao menos, agradáveis. Custava?

As mãos da mulher começaram a incomodar Álvaro. De repente, ele se levantou.

— O que foi, amor?

— Preciso me arrumar. Muito trabalho. Hoje vai ser um dia daqueles.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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