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Símbolo de força

No Brasil, homem sem chifres é animal indefeso

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Fonte inesgotável de histórias envolvendo pobres, remediados, ricos e milionários, o chifre, conforme a Bíblia, é um símbolo quase universal de força, poder, autoridade e realeza. Por representarem a principal arma e o vigor de animais como touros e carneiros, os escritores sagrados usavam o termo “chifre” para, metaforicamente, descrever reis, reinos vitoriosos e a proteção divina. Na topografia, chifres podem ser referência a uma elevação de terra pontiaguda (muito comum no litoral) ou a uma formação rochosa de formato pontudo e alongado. Na música, são instrumentos de sopros, os quais deram origem à família dos metais em orquestras, frequentemente chamados de trompas (ou horns, em inglês).

Como se vê, os chifres têm história e são cada vez mais comuns no dia a dia do ser humano. No Brasil e em vários países de língua portuguesa, as palavras “corno” e “chifre” são amplamente usadas como gírias para indicar que alguém foi traído pelo parceiro ou parceira. Nada de mais, considerando que o mais importante é ser feliz. Para quem avalia os chifres como a suprema vergonha, não casar e não se envolver com alguém do sexo oposto são as únicas formas de estar seguro. Como viver é correr riscos, um homem sem chifres é um animal indefeso.

Para os que levam a vida na flauta, antes ser um corno sorridente do que um chato insuportável. Em uma nação democrática como o Brasil, o mais relevante é que as estruturas pontiagudas não escolhem cabeças. Ricos, pobres, de esquerda, de direita ou de centro um dia sofrerão do mesmo mal, pois chifre é igual a consórcio: quando a gente menos espera, é contemplado. Durante minhas andanças como jornalista investigativo, cobri um caso famoso de uma cidade histórica de Minas Gerais, envolvendo um não menos famoso comerciante local.

Sem necessidade de entrar no mérito, lembro que a patroa do empresário, também conhecida como esposa, tinha uma relação extraconjugal. Todavia, como sempre ocorre nessas situações, Deus e o mundo sabiam, menos o traído. Ele só desconfiava. Era algo com dente de bebê: só dói quando nasce. Cabeça pesada e o negócio sem uso doméstico, um dia o homem de negócios resolveu tirar tudo a limpo. Contratado às pressas no município vizinho, o detetive particular, no primeiro dia de trabalho, pasta 007 sob o braço, confirmou o chifre.

Esposa e amante no motel, empresário e detetive passaram na delegacia para solenemente convidar o delegado e um escrivão para lavrar o flagrante. Até então, nem mesmo o detetive havia se apresentado. Ou seja, um não sabia o nome do outro. Não fosse uma evidente, ardente, fogosa e inflamada fornicação na mulher alheia, tudo isso seria mero detalhe. Ocorre que galhadas têm de ser avaliadas e lavradas com seriedade. Entraram no quarto no momento do prazeroso gemido da insidiosa senhora.

O que ninguém desconfiava é que o galhudo estava armado com um 38 cano longo na cintura. Quando ele viu o trem entrando, saindo e babando nas entranhas barbadas da patroa, não se conteve: engatilhou o trabuco. Não teve tempo de apertar o gatilho, porque o delegado percebeu e, rápido como um gato, pulou sobre o sujeito e começou a gritar: “Pelo amor de Deus, segurem o corno, segurem o corno, segurem o corno. Ele vai matar a infiel”. A notícia é que, em lugar de um, a autoridade teve de lavrar dois flagrantes: adultério e tentativa de homicídio.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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