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Vento antigo

Espelho da alma

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

No espelho da janela, o sonho vinga devagar,
um vento antigo desenha promessas no vidro,
e a cidade dorme enquanto minha boca guarda
o nome que nunca foi inteiro, só sussurro e medo.

Há um mapa de ausências dobrado no peito,
linhas que levam a portas que não se abriram,
um jardim de desejos que cresce sem flores,
raízes que procuram água em noites de silêncio.

A alma, sentinela, espera como quem vigia o mar,
espera barcos que viram estrelas e desaparecem,
segura mãos que não tocaram a vida inteira,
faz de cada memória um abrigo frágil e claro.

O coração é um viajante que erra estação,
desce em cidades de talvez e conserva bilhetes,
olha as faces pelas janelas e não reconhece
nenhuma que aceite ficar até o amanhecer.

Amar, neste quarto, é aprender a contar o tempo:
minutos que pesam como moedas gastas,
desejos que se anunciam em tremores curtos,
promessas que se perdem em rumor de passos.

E eu sigo na beira da própria ausência, sozinho,
ensinando o corpo a lembrar do calor que não veio,
porque há um lugar feito só de vontade distante,
onde o amor sonhado permanece, sem nunca alcançar.

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