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Lama e dejetos

Procissão

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A procissão serpenteava pelas ruas estreitas da aldeia, cobertas de lama e dejetos. Era noite, e o clarão dos archotes dava uma dimensão soturna, quase fantasmagórica, à cena. Um espetáculo sombrio e sem vida, no qual predominavam tonalidades cinzas e ocres, respectivamente das vestes dos monges e das roupas dos camponeses. Podia-se perceber uma devoção ardente em alguns rostos; a maioria, porém, tinha uma expressão de apatia e resignação. Estavam ali porque lhes fora ordenado reverenciar os santos e submeter-se aos senhores espirituais, do cura da aldeia ao papa, e aos senhores terrenos, do barão local até o rei.

Enquanto a multidão avançava, atrás de cruzes e imagens de santos, alguns camponeses começaram a conversar entre si. Inútil individualizar suas falas. Eram feições e corpos parecidos, em trajes semelhantes, homens e mulheres unidos em muitos casos por laços de sangue e condenados ao mesmo destino.

— Alguém sabe o motivo da procissão, de estarmos aqui?

— Não sei. Morte de um bispo, cardeal ou papa, escolha de seu substituto, louvor a algum santo…

— Tem muitos santos para cada dia.

— E, a cada dia, sua agonia.

— Mas os santos nos protegem…

— Só que protegem muito mais o nobre que nos oprime, que nos obriga a trabalhar sem pagamento em suas glebas.

Os padres, à frente da procissão, começaram a entoar a palavra latina submettere (submeter-se), mantra da ordem feudal. Era retomada em coro pelos camponeses e artesãos, percorria a procissão do início ao fim e depois voltava até os religiosos, num vai-vem incessante.

Nesse momento, o homem que havia denunciado com maior veemência a opressão dos senhores explodiu:

— Chega de submissão! Nunca mais!

Houve um silêncio escandalizado a seu redor. Rompido um elo, a corrente de vozes desafinadas foi diminuindo, até cessar. O cura aproximou-se do rebelde, a quem conhecia desde a infância, e murmurou:

— Meu filho, se não se submeter, pelo menos fingir submissão, vai ser barbaramente espancado ou pior, torturado e morto.

— Que seja, padre. Melhor morrer, junto a meus companheiros de desgraça, para que nossos filhos e netos possam ter uma vida melhor, sem tanta opressão por parte dos nobres – e prosseguiu num tom delirante:

— Os anjos já estão entre nós. Foram enviados pelo Senhor para castigar nossos pecados, mas, depois, assegurar uma vida melhor. Muitos vão morrer, servos e senhores, mas depois disso a opressão feudal nunca mais será a mesma.

Palavras proféticas. Só que o Senhor não havia mandado anjos e sim ratos, cujas pulgas eram portadoras da bactéria da Peste Negra. Entre 1347 e 1351, morreu mais de um terço da população europeia. Com a falta de braços, os camponeses sobreviventes conseguiram conquistar melhores condições de trabalho, diminuição ou extinção dos dias de serviços gratuitos e assim por diante. Muitos fugiram dos feudos e se refugiaram nos burgos, que logo se transformariam em cidades. Ou seja, o rebelde da procissão anteviu o milagre, mas não o santo – mais precisamente, os ratos e suas pulgas contaminadas.

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