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Lâmina esquecida

Páginas em chamas

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Nas noites de inverno, quando o vento corta a vidraça
como lâmina esquecida no escuro,
não há vinho tinto respirando no copo,
nem lareira crepitando segredos de lenha.
Só o silêncio gelado do quarto,
o cobertor fino sobre os ombros curvados,
e um livro antigo aberto sobre os joelhos,
suas páginas amarelas, quase transparentes,
são o único fogo que ainda aquece.

Alguém, um dia, escreveu estas linhas:
“o vinho desce lento, rubro como sangue bom,
a lareira dança, dourada, e ri dos frios do mundo”.
Palavras que agora são cinza quente entre meus dedos,
fagulhas de tinta que nunca se apagam.
Eu viro a página e o inverno recua um passo.

O cheiro imaginário de pinho queimando
mistura-se ao aroma fantasma da uva madura.
Não preciso de taça nem de chama real:
o poeta antigo me serve o calor em versos,
e eu bebo devagar, sorvo cada sílaba
como quem se embriaga de memória alheia.

Fora, a geada pinta prata nos telhados.
Aqui dentro, o livro é abrigo e fogueira,
vinho sem ressaca, lareira sem cinzas.
E eu, leitor de invernos emprestados,
agradeço ao desconhecido que, há tanto tempo,
sentiu o mesmo frio
e decidiu acender o papel para nós.

Quando fechar o volume,
o quarto voltará a ser apenas quarto.
Mas por algumas horas,
o inverno foi manso,
e o coração, aquecido por mãos que nunca toquei,
bateu mais devagar,
como lenha que se consome em paz.

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