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Vinho de mercado

Adega do bairro

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Autor/Imagem:
André Giusti - Foto Francisco Filipino

Sempre comprei vinho no mercado, os de lá me parecem suficientemente bons, não me deixam mal no dia seguinte e os preços cabem em meu bolso de assalariado médio. Mas é que haverá um jantar. Não é nenhum baile de gala, mas é de um pessoal bem transado, que fala de lugares, países, o tipo descolado, ou que se faz de, e certamente manja de bebida, especialmente de vinho. Eu não entendo muito, somente o necessário para me sentir bem bebendo e não me desfalcar as contas no fim do mês.

Então esse jantar me parece a ocasião de entrar ali pela primeira vez. Ao abrir a porta, recebo um golpe suave de ar climatizado e sinto um perfume bom de desodorizador misturado ao cheiro de madeira de móvel bom, certamente são as estantes em que repousam garrafas inclinadas com o gargalo para baixo. Tudo bem diferente do mercado.

Um sujeito, não sei se o dono, me recebe bem, o que é o mínimo que se exige de quem ganha a vida vendendo alguma coisa. Explico a situação, diminuo a voz para falar do preço. É que além dele há um outro homem na loja, encostado à ponta do balcão. É gordo, cara vermelha sanguinolenta, cabelo grosso quase todo branco. Belo e bem tratado cabelo. Usa ray-ban tradicional, aquele de aviador. Mesmo dentro da loja, mantém os óculos. Lembra aqueles generais americanos dos filmes sobre a Guerra do Vietnã. Os dois conversam quando entro, mas se calam comigo perto do balcão. É quando o dono, ou sei lá o que ele é ali, vem com atenção para cima de mim. O dublê de generalão se cala, bebe um gole de vinho, e é quando reparo que há uma taça em cima do balcão. Reparo também que me olha. Ou melhor, pressinto que me olha, pois não tira os óculos. Na verdade, mais do que olha: me examina, de alto a baixo, eu tenho certeza.

“Com esse aqui você não faz vergonha”, o outro sujeito me estende uma garrafa de rótulo grená com uma bicicleta antiga desenhada em dourado. “Touriga nacional, português padrão que funciona com tudo. 2013. 46, dentro do seu orçamento. Bom custo-benefício”, ele resume enquanto decido. O general se anima, e dá de falar sobre a produção do vinho. Explica a qualidade da terra, a inclinação do terreno das videiras, a madeira da barrica. Ouço sem querer ouvir, sem interesse. Meu interesse por vinhos se limita a bebê-los. Não me importa como são produzidos, de modo que nada da explanação influirá em minha decisão, mas sorrio, cordato, em sua direção. “Vou levar”, e entrego a garrafa ao sujeito que vende. Ele e a garrafa me passam segurança, muito mais do que minhas escolhas no mercado, às vezes feito loteria. Saio satisfeito com uma bolsinha comprida, de palha e a marca da loja, mas antes de fechar a porta, escuto o sujeito do ray-ban fazer pouco caso da minha compra. Parece-me que desmerece a vinícola, ou mesmo a uva, sei lá, diz algo como “lugar comum demais”. Mas não me importo. Sigo confiante na compra e na certeza de que não farei vergonha.

E realmente não faço. “Delicioso! Foi você quem escolheu?”, e a anfitriã pergunta. Respondo que sim com um gesto de cabeça e falsa humildade, mas sei que não devo me embevecer. A minha garrafa é a quarta ou quinta a ser aberta, quando todo vinho que se bebe não parece mal. Mas incentivado pela performance convincente, volto à loja duas semanas depois. Vou pedir pizza de pepperoni, será apenas eu comigo, nada nem ninguém de especial, e nesses casos a compra no mercado resolve bem demais. Mas, vá lá, é início de mês, há ainda algum fôlego para o salário, e o vinho do sujeito atencioso que parece dono pode não ser da outra galáxia, mas ganha com algumas cabeças de vantagem de minhas opções de sempre no mercado.

“Esse sangiovese vai resolver o seu problema”, e ele me estende uma garrafa em que leio Prodotto in Italia. 52 pratas, mais caro que o português da primeira vez. Já se garante que ganhou o freguês e começa a me empurrar os mais caros, penso rápido, mas aceito, o preço ainda está no quadrado do orçamento. “Os italianos que chegam ao Brasil estão bem abaixo do que eles produzem lá, é uma estranha regra do mercado que tem uma explicação”, e alguém diz do canto do balcão. Quem? Eu não havia reparado, mas, virando uma taça, está o rosáceo general de filmes, escorado ao balcão. Desta vez, o ray-ban está pendurado no bolso da camisa, um camisão branco, bem largo para caber seu tamanho, por isso noto que olha com uma vírgula de desprezo para a garrafa que será minha tão logo a maquininha do cartão aceite minha senha. “Os verdadeiros italianos chegam aqui por 400, 450 mangos”, e ele desfia um rosário de supostas razões para o preço. Não sei se realmente manja de vinhos, mas há algo em que ele é realmente bom: dar opinião sem ser consultado. Sorrio. Pego a bolsinha com a garrafa e vou embora pensando na pizza.

“Suponho que você saiba que um tempranillo harmoniza com carnes grelhadas. Também vai bem com massa”, e novamente sem que eu peça ou pergunte algo, aquela vermelhidão grisalha e balofa, de taça na mão, se imiscui na minha conversa com o dono, ou o que quer que o outro seja ali (é a terceira vez na loja e não descubro nem me interesso muito por sua função). “Não, não sei”, respondo com educação. Quero apenas resolver o vinho e voltar para casa, sem ter aulas que não pedi. Mesmo com o ambiente climatizado, a rubra criatura sua na testa, enquanto despeja com empáfia um conhecimento de enólogo que não tenho como comprovar. Estou ali por causa da sugestão de alguém do trabalho – “esse espanhol é fora de série” – e mostro o nome do vinho nas notas do celular. “Não estamos tendo, mas este aqui é espanhol também e é ainda melhor”, e o da loja vem com o outro vinho, o tal tempranillo, movimento suficiente para que red ballom se meta de novo onde não é chamado, onde, aliás, nunca é chamado. “É porque as pessoas acham que obrigatoriamente o vinho só por ser espanhol deve ser bebido com o paella. É o mesmo erro de achar que todo português vai bem com bacalhau. Isso é ignorância que, creio, não seja o caso do amigo”, e remexe a taça, fazendo girar os dois dedos de tinto que há lá dentro. Está sem óculos. No escárnio dos olhos, me chama de burro. “Não, amigo, não é pra paella, nem sou de frutos do mar”, respondo, com sorriso de civilidade. “98”, e o que vende diz o preço quando pergunto. Enrugo a testa e lamento. Estou fora, estourou o orçamento, ainda mais em fim de mês. “Procuro algo na faixa de 50, no máximo”, digo baixo, como se fizesse uma confissão de envergonhar pai, mãe e filhos. Na verdade, nem é tanto por vergonha, é sim para que o homem ao lado não escute e não continue enfiando sua colher. Mas é em vão, ele insiste em opinar e agora faz até muxoxo: “Um vinho decente não se encontra por menos de 300”. Sorrio, protocolar. Isso era quase dez por cento do meu salário. Inviável, portanto. O dois já devem ter pescado que sou um desbravador com limites curtos nesse mundo papagaiado do vinho. “Abaixo desse patamar”, prossegue a figura vermelha que parece acoplada ao balcão, “sai mais negócio tomar ‘litrão’ da Skol ali na esquina”, e aponta, debochado, na direção do boteco. Sinto o golpe. De vez em quando dou as caras no botequim, mas não encaro qualquer cerveja, ao contrário do que ele pensa, ou parece que pensa. Eu deveria explicar isso, mas me faço de desentendido. O dono, ou sei lá o quê, sorri amarelo, constrangido. Parece perceber que aquele apêndice do mobiliário pode até gastar bastante na loja, mas sua boca irrefreável talvez em algum momento impeça que outros gastem, mesmo que nem tanto. Penso no mercado. Talvez esteja mesmo lá o meu patamar.

O rinoceronte rosa-choque guarda uma característica comum aos pinguços, sejam de que nível for: a incontinência verbal. “Quando você leva um vinho prum evento, ele diz muito de você. Vinho mais ou menos é sinal de uma vida mais ou menos, que o cara arrasta na mediocridade. Agora, se você leva um rótulo de respeito, as pessoas te olham com respeito. Pensam ‘esse cara aí não é qualquer coisa, é um cara diferenciado”. Acho que é uma maneira rasa de se classificar alguém que não se conhece, mas permaneço calado, com um sorriso indecifrável. Tenho essa característica, as pessoas nunca sabem o que me passa pela cabeça. Por sua vez, ele prossegue em sua infelicidade vocabular. “Esse aí que você pensa em levar deve ser para temperar a salada, né, amigo? Para limpar o frango antes de assar”, e dá uma gargalhada confessa de escárnio. O que creio como dono ri sem graça, sabendo que na verdade o melhor seria não acompanhar a piada. “Eu volto outro dia”, e, sorrindo, sustentando simpatia, devolvo a garrafa que cheguei a examinar com certo interesse. Tomo o rumo de casa, perco a vontade de vinho, desisto até do mercado, e saio achando que não pisarei mais ali.

Mas passa a semana, a quinzena, passa o mês. Indo para casa, um cheiro de pizza na lenha, que abriram ali perto, me vem às narinas como fazem as flores mais perfumadas. Entro no mercado; afinal, ali é o meu lugar. O problema é que sou tomado por um fastio tal daqueles rótulos, que eles me parecem até desbotados. Não pode dar certo guardar vinho daquele jeito, as garrafas na vertical, com luz e calor do dia batendo em cima. Vinho não é groselha. Sem me atinar, olho com desdém aquelas garrafas que me passam acidez exagerada e nenhum veludo. Saio sem nada nas mãos.

“Com licença”, abro a porta da loja decidido e animado a contar sobre a vontade de pizza. O anexo rosáceo do balcão não está, mas logo noto a taça com dois dedos de tinto no canto do balcão em que ele costuma ficar. É improvável que seja de outra pessoa. O que me atende com ares de dono me pergunta que sabor será a pizza, e então quando digo que devo me decidir por uma napolitana, ouço um barulho de descarga no fundo da loja e em seguida um baque de porta fechando. O rubro paquiderme retoma seu posto. Realmente o sujeito parece não fazer nada na vida que não seja beber vinho empoleirado naquele balcão. Mantém a praxe de me olhar de alto a baixo, mas dessa vez fica calado, não mete o bedelho quando fecho a compra de um italiano que me sai por 60 “e que é produzido em regiões com tradição de pratos com presunto, portanto, cairá bem com a napolitana”, conforme me garante o sujeito que sempre saca da manga alguma explicação para que eu tenha a certeza de que estou fazendo um ótimo negócio. Enquanto pego o cartão na carteira, me ocorre que o dono, gerente, sommelier ou um simples vendedor afiado, tenha se virado com raiva para a baleia rosa, pedindo “veja se cala essa boca quando tiver cliente na loja, senão daqui a pouco não vendo mais uma garrafa”.

Mas parece que não. Se disse, o efeito foi passageiro.

É o que constato dez dias depois. Invariavelmente, o sujeito está lá na mesma posição, como se fosse realmente um dos móveis da loja. Uma taça cheia está à sua frente. O rosto vermelho absorve a réstia de luz da tarde que transpassa a película dos vidros da porta. Seus olhos me perscrutam, à espreita do momento em que poderá esnobar. Trago uma embalagem plástica em que carrego um belo contrafilé, pronto para virar destroço em minha boca. É do mesmo mercado dos vinhos que tenho desprezado ultimamente. Agora lá vende comida pronta, de olho em gente que, feito eu, é inútil na beira de um fogão. Falo do bife. “É tannat, malbec ou cabernet sauvignon, não tem erro. Com carne, não há como fugir do Uruguai, da Argentina ou do Chile”, e o que vende dá a sentença. Mesmo com meus poucos conhecimentos, sei que está correto, a julgar pelo que leio de vez em quando nessas colunas sobre vinho. Escolho a cabernet, não porque prefira o Chile, mas porque é a garrafa que sai mais em conta, uns 10 paus a menos. “Tem um corpo intenso, você não vai se arrepender”, e recebo os parabéns quando fecho a compra. O outro, o cativo do balcão, me olha, bebe do vinho, desvia os olhos para a parede, faz aquela cara de quem foi chamado a dar um parecer, a cara de quem cuja opinião o mundo não pode passar sem. Ri, não se segura. “Você está de brincadeira”, e eu e o dono o fitamos: quem está de brincadeira? É como se perguntássemos. “Corpo é isso aqui”, e ergue a taça, girando-a. A luz da tarde rompe o cristal, provoca um belo efeito girante na bebida. “Corpo intenso, toque de amora. E que final! Você deveria experimentar”, e se volta para mim, só que é como se lamentasse cínica e maldosamente: “Mas sei que não tem como. “400. Não é isso?”, e se volta para o que parece dono, querendo confirmar o preço. “E 20. 420”, sem graça, o outro corrige. A caricatura de general veste um camisão azul. Com a pele vermelha feito pau-brasil e a cabeleira branca, parece mesmo a bandeira dos yankees. Faz cara de “é pros que podem” olhando o vinho que toma, e acaba
soltando “Que uva batida é essa cabernet. Qualquer Zé Ruela toma”, fazendo com um dos braços um gesto largo carregado de desprezo. Só não contava esbarrar na garrafa da qual toma. Ela mergulha de ponta-cabeça, se espatifa no chão, e em um segundo, o vinho que ainda havia lá dentro – metade praticamente – se espalha pelo piso de cimento queimado que banca o estilo rústico-chique. Recebo na barra da calça alguns respingos daquelas 420 pratas. Noto que o gargalo está inteiro, bem como o alto da garrafa, e dele sai uma ponta de cerca de um palmo em forma de lança. Parece haver um leve desnível no piso, pois, tendo mantido na queda a forma circular, o enorme caco rola e acaba junto aos meus pés. É uma arma forjada pelo acaso do incidente. Curvo-me e apanho o destroço pontiagudo, molho levemente de vinho a mão esquerda, a que uso para segurar facas e ferramentas. “Que merda que eu fiz”, o sujeito lamenta-se. “Bem, desce outra”, e imediatamente ordena, sustentando a empáfia. Mas quando se volta novamente para mim, arregala os olhos, aqueles mesmos com os quais costuma me observar, superior. Só que agora, no lugar de superioridade, deboche, desdém e escárnio, há um pavor repentino. “Com qual uva deve se parecer o sangue de um homem?”, eu pergunto, sorriso tranquilo no canto dos lábios, chegando com o caco perto de seu pescoço. “Aragonez? Shirah? Nero D’Avola?”, e aproximo ainda mais o vidro daquele pescoço que se assemelha ao de um sapo. A vermelhidão de seu rosto perde rapidamente o viço, em segundos torna-se um acinzentado empalidecido. “Carmenere? Merlot?”, e encosto levemente a ponta do caco na jugular que salta de horror. “Hein? Será que o aspecto do sangue de um homem depende do organismo de cada um, assim como a qualidade da uva depende da terra e da inclinação do solo?”, e sorrio calmo, como se estivesse em um mosteiro. O dono da adega também empalidece, faz uma expressão de quem não tem como avaliar se sou realmente um louco, talvez um psicopata em surto. Com o caco encostado ao pescoço do balofo, sorrio, e sem desviar os olhos dele, pergunto ao dono qual vinho ali harmoniza com um belo pedaço de artéria picada em rodelas. Solto uma gargalhada, mas logo me recomponho, sereno na aparência. “Que brincadeira boba, amigo… vamos ficar de boa”, e a réplica barata de general das tropas no Vietnã inicia um tom de súplica. “Pensando bem, acho que essa coisa inchada que tá saltando do teu pescoço só merece mesmo Skol litrão”, e solto outra gargalhada. O dono também ri, não se segura, mas é óbvio que é um riso de pavor, pavor que eu dê um banho de sangue naquele piso bem transado e na madeira refinada do balcão. “E o corpo do sangue de um homem? Um homem babaca, por exemplo. Será médio? Intenso?”, e forço mais a ponta do caco em sua pele. Ele agora treme e esbarra na taça, que também vai ao chão e se espatifa. Lá se foi o resto dos 420 mangos. “Hoje você está desperdiçando muito, amigo”, e agora sou eu o dono do escárnio. “Perdão, por favor, vamos parar com isso”, ele balbucia. O dono não age, certamente porque tem a certeza de que a qualquer movimento seu, eu rasgo aquele porco inteiro pelo pescoço e sua loja ficará conhecida pela desgraça e não pela qualidade dos vinhos. “Então, responda: que tipo de corpo deve ter o sangue de um homem? Um cara escroto, otário. Quer que eu te ajude a conferir?”, e a ponta do caco esfola levemente a pele. “Pelo amor de Deus, amigo…”. Falta pouco para chorar. Onde a empáfia, o deboche? “Responde! Qual o corpo do sangue de um filho da puta que tem o pescoço rasgado por um caco de vidro?”, e grito até o meio da frase, reduzindo drasticamente a voz dali até a interrogação. “Médio…talvez”, e ele sua, mas agora a temperatura de seu suor é certamente mais baixa do que a da climatização da adega. “Tem certeza?”, e grito, forçando mais o caco. Um pouco mais e realmente furo o cara. “Será mesmo? Você com esse tanto de colesterol que deve ter é capaz de ser corpo intenso”, e solto outra gargalhada. “Sim, certamente deve ser”, ele concorda, e dessa vez o tom é o de pedir clemência. É quando um cheiro forte de merda sobe pelo ambiente, superando o desodorizador e o perfume da madeira. “Amigo, por favor, ele tá passando mal…”, e o dono, apavorado, aponta para baixo, para as pernas do generalão. “Que coisa feia, que falta de educação”, sorrio debochado, “um homem tão requintado, tão conhecedor dos melhores vinhos… cagando nas calças”, e solto uma meia gargalhada. “Vamos, então, resolver logo isso”, e imprenso com mais força em sua carne o caco da garrafa. Ele treme, geme, parece certo de que morrerá ali, cagando, após meia garrafa de vinho caro. Então deslizo o caco pelo seu pescoço, abrindo um pouco a pele, mas sem sangrar. Passo pelo ombro e paro no alto do braço. Nesse ponto, enfio o vidro e abro um corte de uns cinco centímetros. O sangue escorre, rapidamente chega ao balcão. Ele grita. O dono congela. Volto logo com o caco na direção de seu pescoço, e mesmo nauseado com o cheiro de bosta, consigo dizer que “Isso é para você toda vez que olhar esse rasgo, parar e repetir para você mesmo: como eu sou um babaca, como eu sou um escroto, como eu sou um otário. Combinado?” e forço o vidro contra a pele, abrindo uma pequena ferida que certamente sumirá com mertiolate. Entre lágrimas, ele soluça “Sim, sim”. Pego a garrafa que comprei e vou andando de costas, sempre empunhando o caco. Quando abro a porta e ponho o primeiro pé na calçada, o dono, enfim, vai acudi-lo. Sua roupa está vermelha e há uma poça de sangue no balcão, pingando no soalho rústico-chique, formando outra poça que mistura também vinho e o líquido marrom viscoso da merda que lhe desceu pelas pernas.

……………

André Giusti, do livro As Filhas Moravam com Ele, Editora Caos e Letras, 2023
Semifinalista do Prêmio Oceanos

*https://www.andregiusti.com.br/site/

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