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Vozes da Literatura

A trajetória literária e a poesia viva de Evani Rocha

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

A literatura contemporânea ganha cores e contornos únicos quando moldada por vozes que enxergam a arte não como um mero exercício estético, mas como uma extensão inseparável do próprio ato de existir. É sob essa perspectiva vibrante e profundamente ligada à natureza que a escritora, poetisa e artista plástica Evani Rocha constrói sua trajetória. Nascida com uma inclinação nata para as artes, a profissional da educação viu seus escritos ganharem o mundo a partir de um momento de introspecção na pandemia, culminando no lançamento de sua obra de estreia, Retalhinhos Poesia (2020). Desde então, sua assinatura literária tem cruzado fronteiras, seja em coletâneas, revistas ou na prestigiada Federação Brasileira dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes (FEBACLA).

Nesta edição da coluna Vozes da Literatura, Evani compartilha os bastidores de seu processo criativo, sua atuação como colunista no renomado Jornal Cultural ROL e a maturação de seu primeiro romance de suspense e drama. Com a delicadeza de quem transforma sentimentos em uma “ciranda de palavras” e a firmeza de quem sabe a hora de “cortar na carne” durante a revisão textual, a autora revela como a observação dos conflitos humanos e as memórias afetivas dão vida a personagens com voz própria. Acompanhe, a seguir, os principais trechos desse diálogo inspirador sobre a urgência da arte e o poder transformador do humor e da sensibilidade no cotidiano.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua trajetória? O que o levou a tornar seus textos públicos?

Em primeiro lugar, quero agradecer à equipe do Café Literário, através do portal de notícias Notibras, pelo convite para esta entrevista. É uma honra poder compartilhar com os leitores um pouco da minha história. Na verdade, escrevo poesia desde a adolescência. Mas acredito que nasci com uma inclinação colorida para as artes. Sinto-me como se estivesse, desde sempre, dentro deste círculo que mistura vida e arte, num processo inebriante de existir. Porém, o divisor de águas aconteceu durante a pandemia da Covid-19, quando fiquei alguns meses em casa, com um tempo livre raríssimo nessa minha caminhada enquanto profissional da educação. Então, tive a ideia de juntar os meus escritos (muitos já haviam se perdido), e me perguntei: ‘Por que não?’. Tive vontade de publicar um livro. Nessa fase eu já publicava uma poesia ou outra através das minhas redes sociais, porém com pouca visualização. Assim, minha primeira obra publicada foi um livro de poesia, intitulado Retalhinhos Poesia, pela Editora Dialética, em julho de 2020. Nos anos seguintes, continuei escrevendo muito, principalmente poesia e conto. Participei de várias coletâneas e revistas literárias.

Em 2023 veio o convite para participar como colunista literária no Jornal Cultural Rol, convite pelo qual me senti honrada em receber e poder compor esse distinto grupo de escritores, jornalistas e poetas. Nesse mesmo ano fui apresentada também à FEBACLA (Federação Brasileira dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes), por intermédio da amiga, escritora, poetisa e delegada cultural, Verônica Moreira, de Caratinga/MG. Mais uma conquista que muito me enaltece, considerando que são instituições que valorizam e evidenciam a arte e a cultura, de forma genuína, no Brasil e no mundo.

“Grande parte da minha escrita é poesia”

Entre conto, crônica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual gênero você encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

Grande parte da minha escrita é poesia, tanto em verso quanto em prosa. Escrevo contos porque gosto de ouvir e contar histórias. Escrever para mim é como falar ao mundo aquilo que é impedido pelas barreiras físicas ou psíquicas. É transformar sentimentos numa ciranda de palavras, que às vezes dançam, se misturam, se perdem ou se reencontram, criando uma tessitura adornada de fantasia ou vida real. Dessa forma, a prosa sempre me deixa mais livre para compor uma ideia, sem compromisso com versos ou rimas.

Atualmente, estou finalizando a minha primeira obra, direcionada ao romance, com características de suspense e drama. É um projeto que estava na gaveta há pelo menos três anos. Houve necessidade desse tempo de maturação para, enfim, passar novamente pelo crivo das criações e correções.

Quais são as fontes mais recorrentes de sua escrita: experiências pessoais, observação do cotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes ou algo diferente?

Sempre digo que estou umbilicalmente ligada à natureza. Esta que considero meu primeiro berço. Então, a tenho também como minha primeira fonte de criação. Gosto de me inspirar nessa ligação intrínseca entre a vida e a natureza e em todos os reveses que envolvem essa ligação. A beleza mais genuína está, sem dúvida, nos fenômenos naturais. Porém, o viver está impregnado de desafios. Os conflitos humanos, as dores da alma, os rostos anônimos que percorrem as ruas, em um movimento frenético, a rememoração da infância e a permanência das memórias afetivas, nos fazem refletir. Obviamente, a leitura, a interligação da escrita com outras formas de arte, também são fontes especiais de inspiração.

“Não tenho meta de escrita, escrevo muito por inspiração”

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

Como não tenho meta de escrita, escrevo muito por inspiração. Às vezes, chegam poemas completos, de uma só vez. Ou pode acontecer dessa história ou poesia ficar presa, esperando as palavras certas para que possa ganhar o teclado ou o papel. É um trabalho de âmago, das circunstâncias ou do meu momento de espiritualidade. Preciso da arte para viver. Se não estou a escrever, estou dedicando-me às artes plásticas: peças utilitárias ou decorativas, produzidas a partir de materiais reciclados e orgânicos, e decoradas com acrílica. Ofício a que me dedico há mais de vinte anos e sem o qual minha jornada, certamente, teria menos flores. (https://jornalrol.com.br/?tag=exposicao-de-artes-janelas-do-brasil&print=print-search)

Quando trabalha com ficção narrativa, como você descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a história?

Acredito que uma personagem forte é sine qua non para uma história, pois são os personagens que tornam as ações verossímeis e sensibilizam o leitor. Muitas vezes, a qualidade de uma personagem está exatamente naquilo que não é exposto, visível. Mas naquilo que ela esconde, o que está nas entrelinhas. Isso induz o leitor a criar certas expectativas e instiga a curiosidade, tornando a história mais interessante. Percebo que uma personagem completa é aquela que já se apoderou de sua personalidade, ganhou voz própria. Então, se tentamos mudar o nome dessa personagem, invariavelmente, nenhum outro nome mais lhe cabe.

“Mesmo que doa, muita coisa precisa ir embora”

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

A revisão, às vezes, é um processo doloroso. Esse é um momento de enxugar a obra. Cortar na própria carne. Mesmo que doa, muita coisa precisa ir embora. Quando escrevo uma história pela primeira vez, sempre empolgo-me e acabo cometendo excessos. Portanto, na revisão, preciso pedir licença e abandonar o que não faz sentido. Penso que, para a maioria dos autores, uma obra parece nunca estar acabada. É a própria obra que precisa nos ‘dizer’ a hora de parar.

“O Jornal Cultural ROL é um veículo em expansão nacional e internacional”

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou — ou confirmou — em sua relação com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

O Jornal Cultural ROL é um veículo em expansão nacional e internacional, em grande parte, pelo seu comprometimento com a valorização da arte e da cultura. Seu trabalho sério e de qualidade enriquece muito nossa visão de mundo, além de fortalecer laços e proporcionar o contato entre autores com interesses afins. Estreei no ROL, em meados de 2023, com o poema: Tornei-me mar. Desde então, meu trabalho com a literatura tem rescido consideravelmente. Minha honra e gratidão ao Jornal Cultural ROL, em nome do seu editor-chefe Sergio Diniz da Costa, pessoa iluminada que muito nos incentiva. Entrei no ROL com a simplicidade desse meu lugar de voz, mas dialogando especialmente através desta fonte inspiradora, que é a natureza em si e a natureza humana. Um encontro que denota a imbricada teia de relações que se eternizam entre os seres no metamorfosear da vida. Foi assim que, no decorrer desses últimos anos, tive a alegria de compartilhar meus sentimentos e emoções em forma de poesia e outros, com os leitores do ROL, bem como um importante aprendizado com escritores, poetas e outros artistas que fazem parte desse seleto grupo.

“O retorno do leitor é sempre muito importante para o escritor”

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

O retorno do leitor é sempre muito importante para o escritor, pois ele nos revela de que forma nossa escrita é vista, como ela dialoga com os leitores. Muitas vezes, um comentário mais aprofundado pode nos elucidar algo que estava implícito, obscuro ou tão somente visto de um prisma diferente. É confortante saber que tantas poesias e histórias que deixamos desprender de nossa mente têm o poder de tocar as pessoas de alguma forma, de lhes despertar alguma sensação ou sentimento.

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

Os jornais culturais independentes prestam um importante trabalho de apoio à arte e à cultura. Haja vista que é preciso quebrar a hegemonia dos grandes veículos de informação de massa, muitas vezes monopolizadores das narrativas políticas e sociais. No tocante à arte, sua importância também se mede pela autonomia editorial, oportunizando maior visibilidade aos autores e, consequentemente, descentralizando as informações. Acredito que a maior barreira ainda é o acesso aos meios tecnológicos, restrito à uma faixa da população.

“É notório que a arte e a cultura estão inseridas no cotidiano social”

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

É notório que a arte e a cultura estão inseridas no cotidiano social, o que faz todo sentido é que também estejam presentes num portal plural, onde circula o noticiário. Acredito que essa junção facilita o acesso às artes, principalmente à literatura. Por outro lado, proporciona maior visibilidade aos autores/artistas.

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado — e qual você considera superestimada?

Publicar um livro numa editora grande requer de médio a alto investimento e, em contrapartida, não se consegue obter um retorno considerável. Às vezes sequer conseguimos ressarcir o investimento. Para mim, há dois obstáculos: fazer a publicação e a divulgação da obra. Escrevemos, revisamos, nos dedicamos e depois guardamos nas intermináveis pastas digitais. O que ainda vale muito a pena é que estamos investindo na realização de sonhos. E termina por aí. Em junho de 2023 publiquei o meu segundo livro (contos), intitulado ‘Folhas de outono, pela editora Autografia. Seu lançamento aconteceu na Bienal/Rio2023. A partir do lançamento, tenho feito a divulgação nas redes sociais, mas com uma média de alcance incipiente. (Instagram: @evani_rochaa, Facebook: Evani Rocha – Poesia & Cia, TikTok: @evani.rocha4). Por isso, é importante frisar o apoio dispensado aos autores, através dos portais independentes. A participação dos mesmos em grupos que tenham interesses similares. A parceria com Jornais Culturais, entre outros, deve ser considerada.

Ao imaginar alguém lendo sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

Escrevo normalmente para um público jovem e adulto. Busco evidenciar em minhas obras, histórias que possam levar o leitor a viajar na sua imaginação, que despertem a criatividade, vontade de ler mais, que, porventura, possam lhe trazer memórias afetivas e até um pouco de humor. Acredito que escrever é exercer a nossa mais profunda liberdade de expressão. Obviamente, cada autor tem sua própria essência expressa na escrita. Porém, se eu tivesse o poder de interferir nos sentimentos e/ou efeitos no leitor, ao ler minhas obras, evitaria incitar a violência e despertar sentimentos como a tristeza ou a raiva.

Há um projeto em curso — livro, coletânea, pesquisa, novo gênero, revista, oficina ou outra iniciativa — que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?

Estou continuamente escrevendo pensamentos, poesia e contos. Todavia, ultimamente estou imersa em um novo projeto – a revisão do meu primeiro romance. Este é como se desse início a uma complementação de trajetória, sonhada e um tanto especial. É um enredo que vem muito ao encontro da minha trajetória profissional, mas que também representa as angústias e dores da alma, cheia de fatos que se confundem com a história de muitos. Com personagens fortes, carregados de sensibilidade, e com profunda transformação de vida.

Que prática, escolha ou disciplina você recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita você considera insuficiente ou enganoso?

Escreva. Se chover, escreva. Se fizer sol, escreva. Isto é, se escrever lhe apetece. Revise seus textos muitas vezes. Escreva com sua verdade. Evite ‘coisas prontas’. Não subestime a inteligência do leitor. A sua genuinidade na forma de se expressar, por mais simples que seja, é o que pode cativar o leitor. Se puder, procure divulgar seus trabalhos não apenas nas redes sociais, mas também através de portais independentes que valorizam a arte e a cultura. O escritor escreve para dar asas às palavras e não para prendê-las na gaveta. Então, mostre ao mundo as suas tramas poéticas, sua tessitura literária. Muitas vezes, sem saber, somos porta-vozes de muitas vozes que não conseguem desprender-se das gargantas trancadas, dos lábios cerrados ou dos olhos, silenciosamente vertentes.

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Evani Ferreira Rocha, nascida em 19 de dezembro de 1970, na região de Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Graduada em Biologia pela UFMT, e em Letras – Língua Portuguesa e Espanhol, pela UniCV/PR, com Pós-Graduação em Educação Especial e Literatura Brasileira. Professora da Educação Básica Estadual (MT) há vinte e seis anos.

Casada, mãe e avó. Apaixonada pela natureza e pelas artes, divide seu tempo entre a docência, a escrita e a arte com materiais reciclados e orgânicos. Considera a natureza seu primeiro berço, representando grande parte de sua memória afetiva. Assim, o motivo pelo qual sua escrita e arte contam muito sobre esse lugar. Começou na arte e na escrita na adolescência. Porém, os compromissos da vida adulta escassearam essa rotina. O que não foi forte o suficiente para pará-la. Publicou seu primeiro livro intitulado “Retalhinhos Poesia”, em julho de 2020, pela Editora Dialética; o segundo, de contos, intitulado, ‘Folhas de outono’, pela Editora Autografia em 2023. Participou também de algumas antologias e revistas literárias. É colunista do Jornal Cultural ROL e acadêmica da FEBACLA (Federação Brasileira dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes) desde 2023. Federação da qual recebeu o título de ‘Embaixadora Cultural da Paz’, em 2024. Concebe a literatura como asas para as palavras, e asas não foram feitas para morar em gavetas. Elas precisam voar mundo afora.

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