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Cantinho do Leitor

Vívian Costa revela como o Café Literário humaniza sua rotina na saúde

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Fotos Arquivo Pessoal

Entre a pressão dos plantões e a exaustão dos livros de anatomia, a arte surge como um oxigênio indispensável. No bate-papo de hoje do Cantinho do Leitor, conversamos com Vívian Costa, uma jovem de 22 anos que divide seu tempo entre os desafios da faculdade de Enfermagem e os versos que pulsam no portal. Leitora assídua e apaixonada do Café Literário, ela encontrou nas poesias e nas entrevistas com escritores um refúgio essencial para manter a sensibilidade afiada em meio à rotina hospitalar.

Nesta entrevista tocante, Vívian nos revela como a literatura independente nacional redesenhou seu olhar sobre o mundo e transformou sua própria postura diante do cuidado com o próximo. Ela compartilha como usa as telas digitais para buscar fôlego nos intervalos do estágio e de que forma os bastidores da criação literária funcionam, para ela, como uma verdadeira anatomia da alma humana. Acompanhe a conversa completa a seguir.

“O Café Literário me mostrou que tem muita gente gigante escrevendo”

De que forma a leitura das publicações do Café Literário, que incluem contos, crônicas, poesias e entrevistas, mudou o que você pensa sobre a literatura independente e os novos poetas no Brasil?

Acompanhar o Café Literário me tirou daquela bolha de achar que literatura de qualidade só está nos livros dos escritores famosos. Ver a força dos novos escritores, quer dizer, novos para mim, me deu um choque de realidade. A literatura independente no Brasil é viva, pulsante, fala a nossa língua e escancara o que a gente vive hoje. O Café Literário me mostrou que tem muita gente gigante escrevendo agora, no anonimato das redes, mas que estão ficando conhecidas graças a esse espaço.

Sabemos que as entrevistas com escritores e as poesias são o seu “vício” definitivo no Café Literário. O que mais a fascina ao ler os bastidores da criação de um autor e depois devorar os seus versos?

É que a poesia crua, sozinha, já é linda, mas quando você lê a entrevista e entende o que aquele autor passou, de onde veio a cicatriz ou o amor que gerou o poema, tudo muda. Parece que o texto ganha três dimensões. Para mim, que estudo Enfermagem e busco entender o ser humano, ver o processo criativo dos escritores é como fazer uma anatomia da alma deles.

Qual poesia ou entrevista lida aqui parece que foi escrita sob medida para a sua rotina intensa como estudante de enfermagem?

Uma entrevista recente com uma autora que conciliava a escrita com o trabalho me marcou muito, mas são as poesias que batem forte. Teve um poema publicado sobre o peso do cansaço físico e a beleza do cuidado silencioso que parecia descrever exatamente o meu retorno para casa, depois de um plantão de estágio no hospital.

“Aquele poema me lembrou que atrás de um prontuário existe uma história inteira com medo da morte”

Algum poema ou fala de escritor no portal já te fez parar tudo nos dias de correria, repensar a própria vida e mudar de perspectiva sobre o cuidar do outro?

Sim, um poema que falava sobre “escutar o silêncio do outro”. No hospital, a gente corre tanto para aferir sinais vitais, dar medicação no horário e preencher relatórios que, às vezes, automatiza o paciente. Aquele poema me lembrou que atrás de um prontuário existe uma história inteira com medo da morte. Mudou minha postura no estágio; agora eu sempre tento parar um minuto a mais para ouvir o paciente com os olhos, não só com o estetoscópio.

O que muda para você entre a leitura rápida e digital da poesia no Café Literário (talvez no intervalo do estágio ou da faculdade) e o ritual de folhear um livro físico de poemas?

O digital é o meu respiro de emergência. Abro o Café Literário no celular no meio do corredor do hospital, nos 15 minutos do café, para limpar a mente da tensão do plantão ou de uma prova na faculdade. É rápido, cirúrgico. Já o livro físico é o meu ritual de descompressão em casa: preciso tomar um banho, acender uma luz mais calma e esquecer o relógio. O celular me conecta com o mundo; o livro físico me conecta comigo mesma.

Quando um poema ou uma entrevista mexe muito com você, você costuma compartilhar nas suas redes para indicar aos amigos e colegas de faculdade?

Minha rotina é corrida e o pessoal da enfermagem costuma focar muito em artigos científicos, então eu filtro bem. Só posto quando o texto é um soco no estômago de tão bom, daqueles que eu sinto que todo mundo que lida com o sofrimento humano deveria ler para não endurecer o coração.

Qual foi a última poesia lida aqui (ou resposta de entrevistado) que te deixou com aquela “ressaca literária” reflexiva, do tipo que você precisou parar um tempo antes de ler qualquer outra coisa?

Foi uma poesia sobre o luto e a finitude das coisas. Como eu convivo com a iminência da perda no ambiente hospitalar, o texto bateu num lugar muito profundo. Terminei de ler no celular e fiquei uns dez minutos olhando para a parede do fundo do laboratório da faculdade, digerindo o peso e a beleza daquelas linhas. Não consegui ler mais nada naquele dia.

Se você mandasse na nossa redação por um dia, qual perfil de escritor ou temática ligada à sensibilidade e ao cotidiano pediria para o Café Literário entrevistar ou publicar?

Eu pediria uma série de entrevistas com escritores que também são profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais). Queria que eles falassem sobre como a proximidade diária com a dor, o nascimento e a morte afeta a literatura deles. Existe uma beleza muito dolorosa na linha de frente dos hospitais que daria poesias brutas e viscerais.

Se a próxima poesia ou texto publicado no Café Literário fosse assinado por você, que sentimentos da sua juventude aos 22 anos e da sua vivência na saúde você contaria ao mundo?

Eu escreveria sobre o contraste de ter 22 anos — uma idade em que todo mundo espera que você esteja curtindo, descobrindo a vida e saindo — enquanto as minhas mãos, no estágio, seguram a mão de alguém que está dando o último suspiro. Escreveria sobre a transição rápida entre a fragilidade acadêmica e a maturidade forçada que a saúde nos exige, mas sem perder a ternura e a juventude no processo.

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Caro leitor, caso você também queira parcicipar do Cantinho do Leitor, entre em contato conosco através do e-mail: concursocontosecronicas@notibras.com

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