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Anedotório machista

Os chifres motivam canções de amor e de dor

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Dia desses escrevi sobre um tema medieval, mas que ultrapassou a Idade Moderna, se consolidou na Idade Contemporânea e dura até nossos dias. Refiro-me aos chifres, objeto pontiagudo que aflora na cabeça de homens e mulheres, embora mereçam mais destaques e comentários quando apontam em testas masculinas. Fonte eterna de boas e más histórias, de contos e romances policiais e novelas globais, os chifres, também conhecidos por cornos, já enfeitaram (e enfeitam) cabeças coroadas, cravejadas de ouro e recheadas de dólares, euros e reais.

Apesar de fazer parte do anedotário machista, é na música sertaneja que a chamada galhada faz mais sucesso. Não sei se por doutrina, convicção, vontade própria, necessidade física, desejo incontido de aparecer ou determinação política do sistema, os intérpretes do incômodo, chato e repetitivo ritmo adoram os compositores que já sofreram, sofrem ou já viram alguém sofrendo desse mal. Como autodidatas, eles (os compositores) criam frases que misturam o sofrimento de uma traição com um toque de ironia ou dor amorosa.

Normalmente, a letra se divide entre o tom irônico, o trágico e o superado, algo como juntos na alegria, na tristeza e na galhada de cada dia. Este último realmente é o preferido dos amantes sertanejos. Já li e ouvi versos absolutamente interessantes sobre um usuário do famoso, mas tétrico, chapéu de touro. Não tenho informações a respeito do autor, mas, inquestionavelmente, um dos melhores é “O meu amor por você era tão cego que nem meus novos chifres conseguiram enxergar a porta”. Normal para quem tem uma decoração pontiaguda na testa.

Há os mais chorosos, como “O romantismo morreu no dia em que minha confiança virou piada e meu amor virou chifre” e os verdadeiros, como “Doeu mais ver a mentira do que sentir o peso de carregar essa história sozinho”. Engana-se quem acha que somente os sertanejos modernos carregam o peso da brochabilidade ou da falta de zelo pelo negócio. Os caipiras de meados do século passado abriram a porteira para os chifrudos. Pior foi descobrir que, entre os românticos dos anos 70, um grupo musical brasileiro denominado Pholhas estourou com uma música que certamente deu origem ao que hoje é conhecido como feminicídio.

Hélio Santisteban e Oswaldo Malagutti são os autores de My Mistake (Meu Erro), cuja letra revela que o corno (não sei qual deles) foi mandado para a prisão por ter assassinado a esposa. Na canção, o sujeito confessa que, ao ver a mulher com outro, perdeu a cabeça e atirou na indigitada traidora. Resumindo, além de corno é possessivo. Como se vê, chifre dói, incomoda, mas também é cultura. Se serve de consolo, ao longo da história, diversos monarcas enfrentaram a infidelidade conjugal, com destaque para o Rei Henrique VIII da Inglaterra, Napoleão Bonaparte e o Rei Henrique IV, ambos imperadores franceses.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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