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90 anos

Zé e Rosa: Zero

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

Ignácio de Loyola Brandão. Este cara me influenciou bastante com seus contos desde a minha adolescência. Completou 90 anos (31/07/2026). Grande jornalista/repórter e escritor. Alguns livros incríveis:

*Dentes ao Sol; Pega ele, Silêncio; ZERO, Cadeiras Proibidas; Não Verás País Nenhum; O verde Violentou o Muro; Bebel que a cidade Comeu; Cabeças de Segunda-feira; O Ganhador; O Beijo não Vem da Boca…… ISTO QUE LEMBREI AGORA DE CABEÇA e num repente. Marcou MESMO!

ZERO, um livro único e de grande ousadia estética e de conteúdo.

Estas são as características mais acentuadas de “Zero” (Global 1979). Ao lê-lo, as coisas vão acontecendo sem uma lógica pré-definida. A história é contada por meio de fragmentos, textos desconexos e imagens atiradas diante dos nossos olhos. A narrativa é ao mesmo tempo caótica, engraçada e trágica.

Livro mais importante da carreira de Loyola Brandão, “Zero” é realmente inquietante e muitíssimo inovador. Não é à toa que foi eleito, em 2000, como um dos cem melhores romances do século XX. Também não foi por acaso que a publicação foi censurada pelos militares aqui no Brasil na época em que foi produzida. As autoridades alegaram que a obra ia contra os bons costumes e à moral da sociedade. Editado inicialmente na Itália em 1974, “Zero” só chegaria às livrarias brasileiras de forma definitiva em 1979. Hoje, este livro é apontado com um dos clássicos da literatura brasileira.

ZERO É TNT PURA

“Zero” conta a história de amor e ódio entre o casal José e Rosa. Você se lembra daquela música do Leandro e Leonardo, “Entre Tapas e Beijos” (1989)? Pois bem: parece que ela foi escrita pensando nos protagonistas do livro (brincadeira!). Depois de se casarem, José e Rosa vivem praticando sexo e brigando. Ou seja, ora se amam, ora se espancam violentamente.

Enquanto conhecemos a vida do casal (em detalhes hilários e pitorescos apresentados a uma infinidade de episódios absurdos que acontecem pela cidade onde eles moram (São Paulo). Há ironia e aberrações. Há a burocracia infernal: uma simples consulta ao médico de um hospital público, por exemplo, pode se transformar em um caos. A polícia e os militares também são intransigentes, buscando comunistas em todos os lugares e desconfiando de tudo e de todos.

Como pano de fundo, temos a repressão (da Ditadura Militar) e o desejo de liberdade (política e de expressão), temas que seriam novamente abordados por Loyola Brandão em uma obra futura: “Não Verás País Nenhum”.

A grande sacada criativa de Ignácio de Loyola Brandão com “Zero” foi ter quebrado a forma tradicional de escrever um romance. O escritor revolucionou a estrutura como o livro foi concebido. Há a tentativa de se reproduzir fielmente sons de gritos, tiros, atropelamentos, músicas, orgasmos e explosões.

A vida e os pensamentos dos personagens são esmiuçados sem qualquer vergonha de se expor a realidade nua e crua. Cheio de notas de rodapés (hilárias por sinal), com pequenos desenhos e figuras (às vezes, parece que estamos vendo uma revista ao invés de um livro), com tramas paralelas (inclusive dividindo espaço na diagramação da página onde a história principal é contada) e uma narração em tom caótico, “Zero” pode ser caracterizado como tendo uma estética própria e única.

Tudo é fragmentado. Cabe ao leitor a obrigação de ir montando as peças do quebra cabeça atiradas pelo escritor.

O resultado em ZERO, é um livro caótico e arrojado. Ele atrai, assombra e hipnotiza os leitores. Sem dúvida, um dos melhores livros nacionais que já li. “Zero” ficará em um lugar de destaque na prateleira da minha biblioteca.

Merecidamente!

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador. Zé & Rosa + Ignácio de Loyola Brandão: inesquecíveis! Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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