Curta nossa página


Mãos trêmulas

Na sala de espera do corredor B

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Os ponteiros são como um relógio de mãos trêmulas: passa e volta, como se cada segundo quisesse pedir licença antes de entrar.

Ali ficam os leitos alinhados como ilhas, cortinas que tremulam com o ar-condicionado e aparelhos que marcam pulsações com o mesmo compasso que um coração que insiste em continuar.

Em muitos desses leitos, alguém escuta, mas ninguém chega.

O doente sem visita tem um cotidiano que mistura o monótono e o inaudito.

A rotina hospitalar organiza os dias em medições de pressão, checagens de medicação e refeições que vêm em bandejas, comida que parece feita para alimentar órgãos, não memórias.

Entre uma visita de enfermeira e outra, sobra tempo. Tempo demais para quem já não tem tanta paciência com o corpo que falha e pouca vontade de disputar o próprio silêncio.

Eles não são apenas números no prontuário. Há um senhor com o olhar de quem reconhece a própria cidade no interior das marcas da pele; uma mulher que desenha chega de netos imaginários com a ponta do olhar; um jovem que segura um rosário como quem segura a última carta na manga.

Cada um carrega uma história que as paredes brancas não traduzem: cartas amarrotadas esquecidas em bolsos de pijama, fotos que perderam o brilho, mas não o valor, um nome sussurrado que deveria ecoar mais alto.

O hospital tem um ritmo que isola. Às vezes, a família demora porque o trabalho empilha, porque o trânsito se recusa a colaborar, porque a vida se enrola em compromissos que julgamos inadiáveis até que a urgência se transforme em passado. Outras vezes, a ausência revela feridas mais profundas: reconciliações não feitas, desavenças que grampearam corações, relações que se extinguiram em silêncio e orgulho.

Há também aqueles que não têm família próxima, ou a têm, mas tão longe que a visita exige mais do que um desejo: exige recursos, transporte, uma logística de afeto que nem sempre existe.

Os profissionais tentam preencher lacunas. Há enfermeiras que sussurram nomes com uma doçura de avó, técnicos que seguram mãos por poucos minutos como se aquilo fosse o suficiente para amenizar noites sem companhia. Às vezes sobra humanização em pequenas medidas: um cobertor estendido com mais cuidado, uma cadeira reclinável trazida para o corredor, uma conversa breve que retoma um pedaço de mundo.

Mas há limites. O cuidado técnico não substitui o calor familiar, e o toque profissional, por mais dedicado, fica com a formalidade de quem faz muito e se permite pouco.

E então vem a noite, essa espessa cortina que torna tudo mais visível. Os sussurros ficam mais altos, as máquinas soam mais próximas e os passos no corredor ecoam como se pertencessem a outro universo.

É nesse tempo que a falta aparece com mais intensidade: um leito iluminado por um abajur improvisado, um rádio esquecido ligado em música antiga, um envelope sem destinatário na mesa de cabeceira. Há, também, pequenos milagres noturnos: uma visita tardia que chega com perfume de estrada, um telefonema que faz a voz de alguém atravessar paredes e trazer um suspiro.

Olhar para esses leitos sem visitas é confrontar uma verdade simples e incômoda: a vida social e a vida biológica nem sempre caminham lado a lado. Amar e estar presente exigem escolha, e escolher visitar é, muitas vezes, escolher enfrentar a fragilidade. Quando não há essa escolha, o que resta são gestos de gentileza que outros oferecem a enfermeira que segura a mão, o voluntário que lê em voz alta, o vizinho que aparece com notícias da rua. São gestos que reconstroem, por instantes, uma trama de pertencimento.

No fundo, o que importa não é apenas a presença física. Importa a lembrança que se carrega, a história contada em voz baixa, o reconhecimento do outro como alguém que fez e faz diferença no mundo.

Um nome chamado pelo corredor, um bilhete deixado na bandeja, uma promessa de volta, tudo isso vale como prova de que a pessoa não está sozinha no mapa dos afetos.

Sair do hospital com essa imagem na cabeça é entrar na cidade com um peso discreto. É lembrar que, além das grandes decisões, há pequenas escolhas que definem como queremos ser vistos pelos que amamos: aparecer em um dia cinza, segurar uma mão trêmula, voltar outra vez. Talvez o maior remédio não esteja nos remédios, mas nesse retorno constante: na coragem de atravessar o caminho, na prioridade de alguém que decide que visitar vale todos os contratempos.

E quando um leito finalmente recebe uma visita, o ambiente muda com a lentidão de uma manhã que abre. O doente sorri com o sorriso de quem reconhece casa; o ar parece diminuir de frio; as máquinas continuam seu trabalho, mas o som se enquadra num cenário que agora tem rosto. Às vezes é pouco; às vezes é tudo. Mas sempre é vida encontrada por quem escolheu, por um momento, ser presença.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.