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Vontade própria

O menino de Sergipe

Publicado

Autor/Imagem:
Gil DePaula - Foto Francisco Filipino

Quem nasce em Sergipe aprende cedo que a maré tem vontade própria.

Ela entra sem pedir licença, abraça o mangue, cobre as raízes retorcidas e, quando bem entende, vai-se embora, deixando a lama brilhando debaixo do sol. Era isso que mais encantava o menino. Enquanto os outros corriam atrás de bola ou soltavam arraia quando o vento ajudava, ele passava horas agachado na beira do mangue, olhando os caranguejos desaparecerem nas tocas, as garças caminharem feito moças elegantes e os peixinhos riscarem a água escura.

— Mainha, parece que esse mangue tá vivo…

Ela sorria enquanto mexia a panela.

— E tá, meu fio. Só enxerga isso quem aprende a olhá devagar.

O menino gostava de olhar devagar.

Gostava de ouvir o vento passando pelos coqueiros como se conversasse com eles desde o começo do mundo. Gostava do cheiro da maresia misturado com o da lama, do pregão dos vendedores na cidade, do sino distante da Igreja de Santo Antônio chamando o povo para a missa, espalhando um som que parecia alcançar até as águas do rio.

Tudo aquilo morava dentro dele sem que percebesse.

Nos dias em que o calor apertava, seguia caminhando até a Praia de Atalaia. Ficava sentado na areia, abraçando os joelhos, olhando o mar.

Nunca conseguia entender como tanta água podia caber num mundo só.

Perguntava aos pescadores:

— O mar acaba onde?

Cada um respondia de um jeito.

Um dizia que acabava na África.

Outro dizia que acabava no céu.

Um terceiro ria:

— O mar acaba é na coragem de quem deixa de navegá.

O menino voltava para casa com mais perguntas do que respostas.

Era assim que ele gostava de viver.

Foi num domingo de céu muito azul que decidiu atravessar para a Barra dos Coqueiros.

A velha canoa de madeira balançava presa ao pequeno atracadouro. O barqueiro, conhecido por todos como Seu Neco, já passava dos setenta anos. O rosto queimado de sol parecia um mapa cheio de caminhos, e as mãos grossas seguravam o remo com a delicadeza de quem carregava uma criança.

— Vamo, cabra. A maré tá boa.

O menino entrou na embarcação tentando esconder o medo.

Assim que a canoa se afastou da margem, o rio pareceu crescer.

A água escura se movia devagar, mas havia uma força escondida ali que fazia respeito.

O menino apertou as mãos contra a madeira.

Seu Neco percebeu.

— É tua primeira travessia, num é?

— É…

— Tá com medo?

O menino baixou a cabeça.

— Um bocadinho.

O velho sorriu.

— Num tenha vergonha do medo, não. Medo é igual maré. Chega sem avisá, mas também sabe a hora de ir embora. O que num pode é deixá ele segurá teu remo.

O menino ficou calado.

Via o remo entrar e sair da água, sempre no mesmo compasso.

Depois perguntou:

— Seu Neco… o senhor já atravessou esse rio quantas vez?

O velho deu uma risada curta.

— Oxente… perdi as conta faz muito tempo.

— E nunca enjoou?

Seu Neco demorou a responder.

Olhou para o mangue, depois para o mar que brilhava ao longe, respirou fundo e disse:

— Porque toda travessia muda quem atravessa.

O menino franziu a testa.

Não entendeu.

Achou bonita a frase, mas ela ficou boiando dentro dele como folha levada pela correnteza.

A vida seguiu.

Os anos passaram ligeiro, feito vento correndo entre os coqueiros.

O menino cresceu.

Estudou.

Foi embora.

Conheceu cidades onde ninguém sabia o cheiro do mangue nem esperava a maré para trabalhar. Viu avenidas cheias de carros, prédios tão altos que escondiam o horizonte e gente que caminhava depressa demais para olhar o céu.

Ali descobriu que existiam pessoas cercadas de conforto, mas vazias de lembranças.

E percebeu também que carregava Sergipe inteiro dentro da alma.

Bastava fechar os olhos para ouvir novamente as marisqueiras conversando enquanto enchiam os balaios.

Via Seu Anselmo costurando as redes.

Sentia o vento da Atalaia.

Escutava o sino da Igreja de Santo Antônio atravessando a manhã.

E, sem saber por quê, lembrava-se sempre de Seu Neco.

Passaram-se muitos anos.

Quando os cabelos embranqueceram e os passos ficaram mais lentos, decidiu voltar.

Não procurou primeiro as ruas nem as casas.

Procurou o mangue.

Abaixou-se.

Pegou um punhado de lama nas mãos.

Sorriu.

Nada parecia igual.

E, ao mesmo tempo, tudo permanecia exatamente como antes.

Os caranguejos ainda desenhavam caminhos invisíveis.

As garças continuavam esperando o instante certo para pescar.

O vento fazia os coqueiros dançarem.

Ao longe, o mar da Atalaia permanecia abraçando o horizonte.

Sem pensar muito, caminhou até o pequeno porto.

Outra canoa fazia a travessia para a Barra dos Coqueiros.

Entrou.

Sentou-se em silêncio.

O novo barqueiro era um rapaz que talvez tivesse a idade que ele possuía quando atravessara aquele rio pela primeira vez.

A embarcação deslizou sobre a água.

O velho olhou para a correnteza.

Então compreendeu.

Seu Neco nunca falara daquele rio.

Falara da vida.

A infância fora uma travessia.

A juventude, outra.

A partida.

A saudade.

O trabalho.

As perdas.

Os reencontros.

Cada margem deixada para trás fizera nascer um homem diferente daquele menino curioso que perguntava onde o mar acabava.

Quando a canoa encostou na Barra dos Coqueiros, ele desceu devagar.

Antes de seguir caminho, voltou-se para o rio.

O vento trouxe, misturado ao cheiro da maresia, o som distante do sino da Igreja de Santo Antônio.

Naquele instante, o velho compreendeu uma verdade que nenhuma escola havia lhe ensinado.

O rio nunca separara duas margens.

Sempre unira duas vidas.

A do menino que partira.

E a do homem que agora voltava.

Sorriu sozinho.

Olhou mais uma vez para o mangue, para os coqueiros, para o azul sem fim da Atalaia e agradeceu em silêncio.

Porque finalmente entendera o presente que Seu Neco lhe deixara tantos anos antes.

Há quem atravesse rios.

Há quem atravesse mares.

Mas os mais felizes são aqueles que, depois de tantas travessias, ainda conseguem voltar para dentro de si mesmos.

E foi assim que o menino de Sergipe descobriu que crescer não era esquecer o lugar onde nasceu.

Era permitir que ele continuasse morando no coração, como a maré que vai e volta, sem nunca deixar de pertencer ao mar.

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