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Profundidade performática

Todo mundo quer ser profundo até encontrar alguém que lê

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma epidemia silenciosa que não aparece nos boletins epidemiológicos.

É a epidemia da profundidade performática.

Nunca houve tanta gente citando filósofos que nunca leu, defendendo causas que nunca estudou e compartilhando frases atribuídas a autores que jamais escreveram aquilo.

Nietzsche tornou-se uma espécie de influencer involuntário.

Clarice Lispector, coitada, já escreveu mais frases falsas na internet do que livros publicou em vida.

A inteligência ganhou um curioso concorrente: a aparência de inteligência.

Não basta pensar.

É preciso parecer pensando.

Não basta ler.

É necessário fotografar o livro.

Não basta estudar.

É indispensável anunciar que está estudando.

Vivemos uma época em que a embalagem intelectual, por vezes, recebe mais atenção do que o conteúdo.

O curioso é que o conhecimento tem uma característica inconveniente.

Ele costuma produzir humildade.

Quanto mais aprendemos, mais percebemos o tamanho daquilo que ignoramos.

Já a ignorância possui um efeito quase oposto.

Ela oferece certezas com uma generosidade impressionante.

Talvez seja por isso que os debates estejam cada vez mais barulhentos.

As pessoas não querem conversar.

Querem vencer.

Não desejam compreender.

Querem responder antes mesmo de escutar.

Existe uma diferença enorme entre opinião e argumento.

A primeira nasce rapidamente.

O segundo exige leitura, tempo, dúvida e, às vezes, a coragem de mudar de ideia.

Mudar de ideia, aliás, tornou-se quase um escândalo.

Como se rever posições fosse sinal de fraqueza e não de inteligência.

Tenho uma enorme admiração por quem ainda diz “não sei”.

É uma frase pequena.

Mas exige um ego bastante disciplinado.

Talvez a verdadeira profundidade não esteja em parecer sofisticado.

Esteja na disposição permanente de continuar aprendendo.

Porque livros não servem para nos tornar superiores.

Servem para nos lembrar, todos os dias, do quanto ainda somos aprendizes.

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