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Foi assim que me contaram

Conflito de rimas

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Foi assim que me contaram:

em tempos que já lá vão

vivia no Tocantins,

entre as dunas e fervedouros

do parque do Jalapão,

uma tribo muito engraçada,

que só falava em ão.

– Vai tudo bem, amizade?

– dizia o turista cabrão.

– Vai tudo bem, amigão.

Quer comprar nossos artigos

de capim do Jalapão?

O senhor tem livre arbítrio,

se não quiser, compra não.

Mas aí eu baixo a porrada,

por tamanha ingratidão.

E o turista comprava;

bem mais prudente, pois não?

O turismo cresceu e, com isso,

os nativos do Jalapão

travaram conhecimento

com gente de toda nação.

E o que aprenderam com eles

trouxe mortificação.

Aprenderam com los hermanos

que havia rimas em ón,

tipo cabrón, corazón,

além das rimas em ão.

Os ianques lhes ensinaram

que havia rimas em i,

tipo sea (si), me (mi),

além das rimas em ão.

Com os franceses, aprenderam

que havia rimas em ê,

tipo feu (fêu), adieu (adiêu),

com um u pequenininho,

além das rimas em ão.

Saber de tudo isso,

De tal profusão linguística,

De tamanha confusão,

Castigou duramente

A gente do Jalapão.

E o pior foi saber

que nenhuma outra nação

consegue reproduzir

as sagradas rimas em ão.

Marco da lusofonia

que vai da América à Ásia,

passando por Europa e África

e se detendo um pouquinho

nas dunas e fervedouros

do parque do Jalapão.

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