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Experimentos nevrálgicos

Santo certo só da certo quando é bem incorporado

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Minha primeira – e única – participação em um culto evangélico ocorreu lá pelos idos de 1904, ano de criação do Botafogo de Futebol e Regatas. Uma pena terem colocado fogo em tudo, inclusive no trombone de vara do cidadão em situação de rua que tocava em frente à igreja em troca de alguns trocados. Infelizmente, o seguro deu perda total para o instrumento. Quanta a vara…Nunca mais tive notícias. Dizem as más línguas que ela andou fazendo sucesso nas noites da Lapa e da Praça Tiradentes, locais desde aquela época muito frequentados pela turma assumida e pelo grupinho enrustido e fantasiado de Robocopy Gay.

Mais de um século depois, o modismo quase juvenil do carnaval daquele ano invadiu nossas casas, telas, shoppings, igrejas, centros de macumba e até calejadas tropas das Forças Armadas e forças auxiliares. A diferença são os bigodes, os cílios postiços, a sobrancelha trabalhada, as pernas torneadas, o tronco exagerado, o bilau atrofiado e os glúteos adquiridos em promoções semanais da Shopee. Deus me defenda dessa evolução. Como já disse em outras ocasiões, penso como a suposta fala de um gambá do Cerrado que escapou por pouco de ser exportado por um português dentro das ceroulas da esposa de barba por fazer: “Prefiro a morte a esse cheiro forte”. Tinha até sotaque lusitano.

Voltando aos bancos da Igreja Presbicheriana, não me isento das críticas pelo bafo inebriante da mardita. Nada que me impedisse de reagir com um rigor meigo e caliente às afirmações de uma obreira deveras interessante. Dizia ela a um desses pastores que ouviam as confissões com um olho aberto e outro fechado: “Ontem, estava eu abestalhada nos braços de Satanás. Hoje, embevecida, estou nos braços de Jesus”. Rápido como um raio, me antecipei aos olhos de rapina do saliente religioso e perguntei à moçoila: Tem compromisso para amanhã? Não me lembro da resposta, pois só acordei dois dias depois dos efeitos do “telefone” aplicado pelos solidários parceiros do chefe do rebanhão feminino.

São esses experimentos nevrálgicos e nocivos à saúde mental que transformam nossas vidas em uma enciclopédia trágico-erótica. É no dia a dia que a gente aprende, por exemplo, que o barco começa a afundar mais rapidamente quando um desavisado fura o caneco com o qual sugávamos o excedente de água do fundo. Sem o caneco com o devido cerzimento é difícil até mesmo conseguir uma colocação como porteiro em casas de saliência explícita. Na verdade, é praticamente impossível, pois, além da necessária e abusiva experiência, há a exigência de um tal teste da farinha, cujo objetivo do empregador é verificar se o candidato algum dia fez uso do toba na contramão.

Esquecem que o indigitado pode ter feito, mas não o fez por vontade própria. Será? Melhor não procurar por novas informações. O ideal é que, na religião, no futebol, no amor e na dor, consigamos sempre incorporar o santo certo. Caboclo errado dá muito trabalho para tirá-lo de cima. Não esqueçamos jamais que o tempo de menino e adolescente já vai longe. A fase de sentar a mamona como sinônimo de masculinidade passou e não volta mais. Nos resta lembrar exclusivamente da mamona como planta pertencente à família Euphorbiaceae, nativa de regiões tropicais e cultivada para produção de óleo de rícino, rico na proteção dos fios do couro cabeludo e, como laxante, perfeito para aliviar o girassol. Não sei se me entendem. Vivi de tudo enquanto vagava entre os bancos de igrejas e os de fóruns criminais, onde a lábia dos advogados é tão pródiga e profícua como a dos pastores.

A diferença é que os primeiros ganham muito dinheiro porque estudaram. Já os outros nem precisaram estudar para ganhar caminhões de dinheiro ensacado. O linguajar de ambos também é muito parecido, algo mais popularesco. Afinal, se dirigem comumente a jurados sem Deus e a esconjurados por Deus. Em uma dessas “viagens” por um tribunal, ouvi o que me ajudou a discernir definitivamente entre uma pomba e uma rola sem asas. Era um julgamento envolvendo estupro. Do alto de sua divina cadeira, o juiz se dirige à testemunha e comenta: “Então, a senhora foi arrolada”. “Não senhor. Estou aqui apenas para testemunhar em favor da minha amiga. Que fique claro que a rolada foi nela”. Silêncio no auditório. Naquele momento, me converti ao catolicismo em braille e até hoje não sei se a tal rolada é doce ou salgada.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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