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Circense

A mulher do globo da morte

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“O Brasil é um país de lágrimas, de vidas à margem e tempos incongruentes; o que será, logo já passou e o que era, talvez um dia será.”
(Glauber Rocha, cineasta brasileiro)

1.
O circo foi armado no terreno da igreja. A cidade, agora, teria função:

— Cidades pequenas, biboquinhas de arrabaldes, coisinhas de interior, cidadezinhas de passagens, – diria a trapezista de pernas longas, magérrimas, loira oxigenada e de olhos profundamente verdes.

A tabuleta do circo teatro chamaria a atenção para a atração do espetáculo:

“INCRÍVEL! INACREDITÁVEL! IMAGINÁVEL:
A loira fantástica girando no globo da morte com quatro motocicletas!”

Elga chegara ao circo na garupa de Tony. Vieram de longe, mochilas ao vento e botas descascadas.

Os anos 60 corriam soltos e com eles as tripes de comunidades beats e hippies. Cabelos ao vento e ao som de Janis Joplin, os dois dariam a medida do tom.

Ficariam com a trupe desde que liberassem os chás de cogumelos e as viagens de ácido. Elga era boa de trapézio, equilibrismo, contorcionismo e principalmente dentro do Globo da Morte. Dias depois, Tony fugiu com a moto e com as mochilas. Elga cortou os pulsos e foi salva pelo palhaço Costelinha. Outra vez, tentou a morte invadindo a jaula dos leões. Erro total. Os leões eram mais mansos que Tony. Apaixonou-se por eles. Elga ganhou amigos, aprendeu o ofício circense e abandonou a idéia de suicídio. Agora ela se transformara em:

“ELGA, A LOIRA DOS LEÕES NA COVA DE DANIEL”:
INCRÍVEL! INACREDITÁVEL! INIMAGINÁVEL.”

2.
O padre procurou Artur, o dono do circo e argumentou:

— Por Deus, eu vos digo, o espetáculo é bom, mas esse número da mulher na cova dos leões é algo indigno, fora dos padrões de moral da nossa religião; ela é libidinosa, passa vontades sexuais e nossas meninas não podem assistir tal libidinagem.

Arthur não teve escolha. Elga, agora, seria a domadora de dragões e vampiros. E Elga foi. Encantou as criaturas e elas entravam no picadeiro e se enfiavam por entre as pernas da loira; mexiam e saiam e cada vez ficavam mais alucinadas. Babavam e ficavam impossíveis. No dia seguinte o padre voltou:

— Filho Artur, não pode isso! A moça continua um poço de libido. As criaturas são almas puras, filhos de Deus, e aquela promiscuía mulher é coisa do dito cujo. Ela sai ou nós não renovamos o alvará. O circo tem de ir embora! Ponto final!

Elga passou a ser:

“ELGA, A LOIRA ENGOLIDORA DE ESPADAS!
INCRÍVEL! INACREDITÁVEL! INIMAGINÁVEL.”

No dia seguinte, a padre voltou à carga:

— Sabe, filho, o problema é que as mulheres filhas de Maria estão protestando com o tamanho das espadas…é coisa perigosa….ninguém engole coisas assim…é coisa do demônio!

Artur entendeu o recado. Agora Elga seria:

“LOLA, A LOIRA ENCANTADORA DE SERPENTES!”
INCRÍVEL! INACREDITÁVEL! INIMAGINÁVEL.”

Não tardou e o padre falou em seu sermão:

— Mulher loira, com corpo exposto, pernas que se juntam às nádegas… E ainda encantando serpentes? Parece coisa de Jezebel! É coisa de pecadora, filho… Muda este negócio aí e o circo fica. Ponto final!

Elga/Lola, indignada, deixou a cidade na madrugada levando com ela o palhaço Costelinha.

3.
Anos depois, o circo de Artur retornara à cidade. O circo já era tecnológico. Mil luzes computadorizadas anunciando a atração central:

“NO GLOBO DA MORTE: ZELDA, A CIBERMULHER, COM QUATRO MOTOS ENVENENADAS. GIRANDO NO CIBERESPAÇO DO GLOBO DA MORTE À PROCURA DO PRAZER TOTAL, VIRTUAL E REAL”.
INCRÍVEL! INACREDITÁVEL! IMAGINÁVEL!”

O padre procurou Artur e pediu discrição:

— Oi filho, é muito bom ter o circo de novo aqui em nossa pacata cidadezinha. Sabe, Artur, os tempos mudam e a gente modifica os dogmas. Eu sei que fui radical no passado, mas o demônio também sempre o foi…quem é esta mulher cibernética do Globo da Morte? – Artur pensou e remexeu a experiência de tanta estrada; depois respondeu:

— Sabe, padre, é aquela mesma da televisão, do programa do Gugu, do Ratinho, da internet, mas creio que talvez seja pecado, não padre?

— Não, filho, não! Os tempos são outros, a igreja modernizou-se… só acho que poderíamos puxar um telão digital para o salão paroquial e assim teríamos um público bem maior e poderíamos ganhar algum dinheirinho extra para as obras da nova igreja, entendes, filho Artur?

4.
A cibermulher saiu da cidade após atear fogo no circo e na igreja. Jamais ninguém ouviu falar de Elga, Lola, Zelda ou qualquer mulher circense que se dispusera a ser objeto de lucro em nome da modernização da fé.

A missa da manhã seguinte foi suspensa por falta de público e de padre.

Ninguém confirma, mas há quem jure na cidade que a mulher arrancou com sua moto envenenada com o palhaço na garupa; xingando mil pragas e prometendo um dia voltar, mas trazendo com ela os dragões e os vampiros. A praga e os berros da loira ainda ecoam por entre os muros do vilarejo:

— Cidades pequenas, biboquinhas de arrabaldes, coisinhas de interior, cidadezinhas de passagem, gentinha de merda, porra!

…………..

NOTA DO AUTOR: O que seria dos pobres homens Mottas sem aquele porto seguro, aquela fortaleza em forma de ser/anjo/mulher? Pois foram as histórias de nossa mãe que nos moldaram como uma “estratégia do olhar”, um modo todo especial de “ler” a vida ao nosso redor. À ela devemos uma percepção de mundo no sentido de que a travessia não é apenas física, mas interior. Com ela, certamente ao lado do velho pai Motinha, descobrimos a magia de perambular pelas cidades mantendo o espírito em movimento, o olhar sempre novo, investigador, procurando descortinar o aqui, mas também o ali, o outro lado, o acolá.

Anos depois de sua iluminação, fui encontrar nos escritos de Calvino a chave para algo que já sabia manifestar -e praticar desde menino -, mas ainda não havia tomado consciência: o “olhar além”, viajar pelas “cidades invisíveis”.
Hoje, após anos vagalumeando pelo mundo como repórter -na verdade, um Zé, um João a serviço do jornalismo (sic!)-, reflito mais claramente o que significa olhar com os olhos da alma àqueles que buscam a percepção desse mundo que se forma nos intervalos, nos impasses, nos hiatos, nos embates fora do alcance dos olhos comuns que só conseguem enxergar a aparência, o que está na superfície das coisas.

E se assim foi, assim o é. “Se assim cêsse que bom foría, mas não ésse!”, diria a Nhá Fia, entre um sorriso reconfortante e outro e, é claro, no pequeno espaço reservado entre um cigarro e o seguinte. Então, como diria a nossa Mãe: vamos às histórias…

Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador. Nasceu e cresceu até a adolescência num pequeno Circo Teatro pelo interior de SP e MS. Vive na pequena vila de pescadores da Guarda do Embaú, SC.

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