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Bate-papo com Raone

Grupo maçônico entra nas articulações para reeleger Celina Leão

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José Seabra - Foto Wemerson de Santi

É comum profissional da imprensa ser convidado para um café, eventos sociais e roda de debates. Em ano de eleições, então, é possível observar que nem todo movimento político começa dentro de um partido. Às vezes, nasce em torno de uma mesa, cresce numa sequência de reuniões e somente depois seus reflexos aparecem no tabuleiro eleitoral. Em Brasília, onde outubro já chegou antecipadamente aos bastidores, encontros promovidos pelo Movimento Justiça e Cidadania, integrado também por maçons, despertam atenção justamente pela capacidade de reunir setores da sociedade num momento em que as principais forças políticas procuram ampliar suas redes de influência.

Há coisa de dois, três dias, foi-me possível observar, em reunião na Grande Loja do Distrito Federal, que a proximidade das eleições transforma qualquer movimento organizado em objeto de atenção. Mais ainda quando os encontros alcançam empresários, advogados, representantes do setor produtivo, lideranças institucionais e integrantes de ambientes tradicionalmente interessados nos grandes debates nacionais, como é a Maçonaria. E o Movimento Justiça e Cidadania, vem ocupando esse espaço.

Não se trata, ao menos publicamente, de um braço partidário. Também não seria correto transformar reuniões destinadas ao debate econômico, jurídico e institucional em comícios disfarçados sem elementos concretos que sustentem essa conclusão. Porém, como política não é feita apenas de filiação partidária, e, sim, de aproximações, movimentos dessa natureza passam a interessar aos observadores da sucessão no Palácio do Buriti.

No debate a que assisti – tinha gente dos mais diferentes segmentos da sociedade, além da presença marcante da deputada Bia Kicis (PL) -, foi notório o engajamento das pessoas para colocar Celina Leão (PP), no centro do tabuleiro. Um quadradinho, como o quadrado do Distrito Federal, com retalhos de uma configuração política que conseguiu reunir parcela importante da direita brasiliense. E se Bia, ao lado de Michelle Bolsonaro, as duas candidatas ao Senado, manifestam apoio à governadora, a composição produz uma espécie de condomínio eleitoral.

De um lado, Celina procura consolidar sua posição de postulante à cadeira que recebeu de Ibaneis Rocha. Do outro, o PL tenta converter a força do bolsonarismo brasiliense em duas cadeiras na Câmara alta. São projetos diferentes, mas eleitoralmente complementares. E quanto maior a capacidade dessa frente de dialogar com segmentos organizados da sociedade, mais musculatura terá para enfrentar adversários que também procuram construir suas próprias redes. É nesse contexto que movimentos da sociedade civil passam a ser politicamente valiosos.

O Justiça e Cidadania, comenta Raone Lima, um dos idealizadores do grupo, constrói pontes. O próprio nome escolhido para a sua constituição ajuda a explicar o território que pretende ocupar. Mesmo porque, justiça e cidadania são conceitos suficientemente amplos para aproximar mundos diferentes, uma vez que permitem falar com empresários sobre segurança jurídica, com profissionais liberais sobre eficiência administrativa, com juristas sobre instituições, com comerciantes sobre ambiente de negócios e com lideranças comunitárias sobre serviços públicos.

É como tomar emprestado, sem infringir regras, um gesto da Maçonaria sobre temas historicamente presentes em seus debates, como liberdade, cidadania, desenvolvimento, educação e fortalecimento institucional. Essa estratégia – deliberada ou simplesmente consequência natural da atuação do grupo – produz capilaridade, uma matéria-prima essencial numa eleição. Claro que o Templo maçônico não precisa virar palanque, apressa-se em dizer Raone. E acrescenta: “Seria precipitado concluir que a aproximação de integrantes do movimento com ambientes maçônicos represente apoio da Maçonaria à candidatura de Celina Leão ou a qualquer outro nome”.

Após enfatizar que Maçonaria não é partido, que loja maçônica não é diretório eleitoral e que maçom não recebe voto pronto junto com avental e malhete, o representante do Justiça e Cidadania recorda a existência, dentro da milenar instituição, de diferentes visões políticas, ideológicas e partidárias. Mas existe uma poderosa rede de relacionamentos, algo que qualquer estrategista eleitoral reconhece imediatamente.

São momentos em que empresários conhecem empresários, advogados circulam entre advogados, servidores conversam com servidores e lideranças institucionais abrem portas para outras lideranças. No debate em questão, um encontro com 200 pessoas pode alcançar vinte mil, depois, 200 mil. Não pela imposição de uma orientação eleitoral, mas pela velha multiplicação da influência.

Esse é um caminho que a Maçonaria conhece há séculos, cabendo salientar que a participação de maçons na política brasileira não começou ontem. Desde o processo de Independência, integrantes do ‘secretismo’ estiveram envolvidos em episódios importantes da construção política nacional. Ao longo do Império e da República, maçons ocuparam cargos públicos, participaram de movimentos políticos e estiveram presentes em debates sobre a organização do Estado. Mas nem por isso jamais significou unanimidade. Ao contrário; a própria história registra divergências entre maçons em lados diferentes de disputas políticas.

A influência da instituição deve ser compreendida, portanto, menos como um comando centralizado e mais como resultado das redes formadas por seus integrantes. É justamente esse modelo que sobreviveu ao tempo, lembra Raone Lima, salientando a importância do voto que nasce numa conversa, por permitir colocar na mesma sala pessoas que jamais frequentariam juntas um comitê partidário.

No momento em que a política brasiliense entra naquela fase em que cada gesto passa a possuir duas interpretações, como a oficial e a dos bastidores, paralelamente movimentos da sociedade civil discutem propostas para Brasília, entidades recebem convidados e cidadãos exercem o direito de participar do debate público. Em pontos diferentes, partidos observam quem conversa com quem, quem abriu determinada porta, quem estava sentado na primeira fila, quem chegou acompanhado, e, principalmente, quem saiu conversando depois que as cadeiras começaram a ser recolhidas.

A conclusão, após o bate-papo com Raone, é que o Movimento Justiça e Cidadania entra nesse radar porque resolveu discutir o futuro do Distrito Federal justamente quando o futuro da capital da República será decidido nas urnas. A coincidência de agendas não significa, por si só, compromisso eleitoral, e seria ingenuidade imaginar que a política não esteja prestando atenção. Afinal, Celina Leão já tem o Progressistas, tem o apoio do PL e leva ao seu lado uma uma frente eleitoral fortalecida por candidaturas distintas.

O que se nota agora é outra disputa que não aparece obrigatoriamente nos programas eleitorais e dificilmente será registrada nas atas partidárias. É a disputa pelas pontes, que estão sendo construídas longe dos palanques e em ambientes onde ninguém precisa pedir votos. A influência, nesse caso, é o caminho natural que leva às urnas.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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