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Choque de gerações

Como nossos pais…

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Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

Há um termo que nunca sai de moda. Choque de gerações. Mas… o que vem a ser isso, realmente? Claro, há mil e uma explicações, tentando explicar algo que é tão simples, mas ao mesmo tempo, complexo quando se procura compreender a profundidade de tal conceito. E por quê? A resposta não é tão simples…

A cada novo núcleo familiar formado nasce a esperança de que costumes arraigados naqueles dois seres que se uniram sejam banidos de uma vez, e que tudo se inicie do zero, onde “o amor e a compreensão sejam a bússola que irá conduzir a criação e a formação do novo indivíduo que será entregue para o casal em questão”… falando assim, fica algo lindo demais, não é mesmo? Porém, a vida é muito mais que frases bonitas. Ela é feita de erros e acertos, e mesmo que não queiramos admitir, o caminho que todos seguimos é aquele que nossos antepassados trilharam antes de nós…

Existe uma palavrinha que resume tudo aquilo que seguimos, mas que procuramos não pronunciar… “Tradição”. E o que vem a ser “tradição”? Bem, vamos lá… essa palavrinha capciosa vem do latim. Seu verbete original é “traditio, de tradere”, e significa simplesmente “entregar” ou “passar adiante”… traduzindo… nada mais é que a “transmissão de valores, costumes, crenças, doutrinas e práticas de uma geração à outra…

O que isso quer dizer? Que você é condicionado, desde o berço, a seguir determinadas regras, e as faz inconscientemente. Porque determinadas ações se tornam automáticas. E você acaba por replicar ações de gerações anteriores, mesmo que antes tenha protestado contra estas…

Sim, esse é o choque de gerações… a discordância de alguns conceitos aplicados à família da qual você faz parte. é quando você é contra determinada ação porque simplesmente não consegue entender o fundamento da mesma. E a ironia da coisa… mais tarde você irá replicar a mesma ação que condenou a tempos atrás…

Quando dois jovens se unem para construir uma vida em conjunto, seu sonho é criar um mundo onde tudo aquilo que consideravam errado em sua família original será expurgado de suas vidas. E quando chegam seus filhos, prometem a si mesmos que agirão de forma diferente daquela que seus pais. Claro, não somos clones daqueles que nos deram a vida. Então há diferença na forma de ver o mundo. Porém…

As semelhanças em nosso modo de agir frente à família que fundamos e aquela da qual nos originamos será algo que jamais nos abandonará. Não que desejemos replicar em nosso ninho as mesmas regras que criticávamos constantemente. E realmente não as replicamos. O que fazemos é uma adaptação da tradição de nosso antigo núcleo com as tradições de nosso par. E aí tudo acabará indo por água abaixo…

Sim… um dos maiores problemas que enfrentamos quando tentamos mudar certos conceitos e preconceitos é justamente as ideias arraigadas em nosso meio. Por mais que tentemos, não é simples quebrar as correntes que nos mantém presos a ideias do passado, porque desde o berço fomos ensinados que a vida tem um fluxo a seguir, e não nos é permitido romper tal concepção…

Como eu disse, cada nova família cria um código de ética particular, derivado às diferenças de como o mundo é visto por ambas as partes. Cada um trouxe ideias antigas para a união e a primeira tarefa que estes devem realizar é torná-las palatáveis para ambos os cônjuges… afinal, será baseado nessa visão construída após a união da tradição de cada um que determinarão o norte a seguir. Mas nenhum dos dois perceberá que estará replicando as ações que até pouco tempo condenava…

O primeiro filho do casal servirá como experimento de como conduzir a criação de um novo integrante da sociedade. Dependendo de como os dois foram ensinados quando infantes, replicarão o mesmo sistema educacional, adaptado conforme as visões diferentes de cada um sobre o controle daquilo que lhes foi ofertado quando eram eles os pequenos… abolir castigos físicos nem sempre significa que deixaram de usar a violência como ferramenta educacional… afinal, palavras machucam tanto quanto um tapa, por exemplo. E, como a violência física, a psicológica também costuma deixar sequelas que poderão acompanhar a pessoa por toda a sua vida…

O problema real? Os genitores não agem por mal. Em sua cabeça, estão tentando fazer o melhor pela sua criança. Por mais esdrúxulo que possa parecer, tudo o que os novos pais fazem é pensando no conforto futuro de seu filho. E não percebem que, como seus pais, tomam atitudes que não educam realmente. Apenas machucam, enquanto adestram o futuro cidadão para agir como deste é esperado.

E quando este atingir a adolescência, irá contestar seus pais, exatamente como estes contestaram aqueles que vieram antes deles. Mas isso não quebrará este círculo vicioso. Transformá-lo em um círculo virtuoso é trabalho para diversas gerações. O problema é que, mesmo depois de darem alguns passos rumo ao futuro, as ideias aplicadas por gerações passadas parecem atraentes, com soluções facilmente aplicáveis, podendo resolver problemas que, à primeira vista, não tem solução… e aí volta tudo à estaca zero…

Somos como nossos pais… tivemos uma infância pontuada por momento felizes e outros nem tanto, passamos pela adolescência levantando bandeiras que acreditávamos piamente que iríamos seguir e acabamos por constituir um padrão de vida que não se diferencia muito daquele de nossos antepassados… e muito daquilo que criticávamos agora faz parte de nosso repertório… porque descobrimos que a vida é mais que frases bonitas e passeatas coloridas…

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