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Protagonismo feminino

Mulher translúcida

Publicado

Autor/Imagem:
Edna Domenica e Gilberto Motta - Foto Tasso Scherer

Todo dia, a mesma sina:
Ensaboa, esfrega, empilha
Estende pra secar…
Sol na roupa, vento morno
Segue o limpo com a vida
Dor e sonhos a quarar
Mãos/magia na soleira

“Rang rang
Chuá chuá
abre a roupa,
estende e Zá!”

Canta a mulher- lavadeira
Engana a falta de tudo
Engana o tempo a esfregar
Ofício de avó pra mãe
E no futuro, a filha…
Tudo de novo a lavar…
(Gilberto Motta)

“Lava roupa todo dia, que agonia”
( Luiz Melodia “Juventude Transviada”)

Como romper o encadeamento desta sina?
Entre quatro paredes, o inferno, a opressão.
Legisladores que a obrigam ser mãe menina…
Dizer não é dever cidadão.
(Edna Domenica)

“Até sonhar de madrugada/Uma moça sem mancada/Uma mulher não deve vacilar”
(Luiz Melodia “Juventude Transviada”)

É só olhar e enxergar
A destreza das mãos
O balanço do corpo
A beleza da voz
Ritual de esfrega e lava
Paciência, amor e calos
Nas mãos
Na garganta
Na arte de superar

“Rang rang Chuá chuá
abre a roupa, estende e Zá!”
(Gilberto Motta)

Na soleira da solidão,
No limiar do isolamento,
Como criar nova canção?
Abre os braços, enche o peito,
(Edna Domenica)

Lavar roupa é por cobres,
L’ argent, bufunfa, mirreis…
Mas o prazer é cantar!

Passam anos, passa o ferro
Passam sonhos da menina
que não para de esfregar

Certo dia fez-se luz
Alguém estava a observar
Não a roupa pendurada
Mas a resiliência a cantar
(Gilberto Motta)

E da utopia o grito:
Parceria é conceito,
Mas prática de libertação!
(Edna Domenica)

…………………….

Edna Domenica é poetisa, autora da antologia de poemas Cora, coração (Nova Letra, 2011).

Gilberto Motta é o poeta da Guarda do Embaú-SC.

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