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Celina, Michelle e Bia

Ibaneis volta, vota em mulheres e pede voto para eleger-se federal

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José Seabra - Foto de Arquivo

Quando deixou o Palácio do Buriti, em março, Ibaneis Rocha (MDB) imaginava atravessar a Praça do Buriti, seguir alguns quilômetros pela Esplanada e terminar a caminhada política no Senado Federal. O roteiro, porém, foi rasgado pelas turbulências que atingiram seu grupo político nos últimos meses.

Agora, quando faltam 48 horas para o encerramento do prazo para registro das candidaturas, o nome do ex-governador volta a circular nos bastidores, mas tendo como endereço a Câmara dos Deputados.

Correligionários ouvidos reservadamente defendem que Ibaneis dispute uma das oito cadeiras reservadas ao Distrito Federal. A avaliação é resumida por uma frase repetida entre aliados, segundo a qual nunca é tarde para fazer a coisa certa. E a hora seria agora.

A eventual candidatura ainda não foi anunciada oficialmente. Publicamente, o MDB confirmou apoio à reeleição da governadora Celina Leão (PP) e não apresentou Ibaneis entre seus nomes para a disputa majoritária.

Ibaneis deixou o governo em 28 de março, depois de sete anos e três meses no comando do Distrito Federal. Ele havia sido eleito em 2018 e conquistou novo mandato em 2022, tornando-se o primeiro governador do DF reeleito no primeiro turno.

A renúncia ocorreu dentro do prazo de desincompatibilização e tinha objetivo conhecido: abrir caminho para uma candidatura ao Senado. Em junho, o próprio MDB nacional chegou a criar uma comissão destinada a negociar a presença de Ibaneis na chapa de Celina. A Executiva Nacional registrou oficialmente que trabalhava para assegurar ao ex-governador a candidatura ao Senado dentro da aliança.

O cenário, porém, mudou. O PL fechou questão em torno das candidaturas de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado, enquanto Ibaneis acabou ficando sem espaço na composição majoritária. Naquele momento, o ex-governador chegou a demonstrar publicamente descontentamento com os rumos da sucessão, seguindo-se um silêncio, com ele se afastando da linha de frente da política partidária e abandonando o projeto de disputar o Senado. Ele parecia, então, disposto a trocar os palanques pela vida privada.

Agora, a hipótese de candidatura à Câmara recupera inevitavelmente o balanço dos dois mandatos. Advogado com longa atuação profissional e ex-presidente da OAB-DF, Ibaneis chegou ao Buriti em 2019 praticamente sem experiência em cargos eletivos. Deixou o Executivo depois de imprimir uma administração fortemente marcada por obras de infraestrutura e intervenções nas regiões administrativas.

Nos primeiros meses de governo, Ibaneis já anunciava a intenção de transformar Brasília em um grande canteiro de obras. Vieram intervenções viárias, recuperação de escolas, reformas de unidades de saúde, revitalização de espaços públicos, renovação de equipamentos e investimentos espalhados pelas cidades (veja quadra abaixo).

É justamente esse conjunto — realizações administrativas de um lado e desgaste político de outro — que transforma uma eventual candidatura de Ibaneis à Câmara em movimento de alto impacto na reta final das nominatas. Para os aliados que trabalham pela volta, a lógica é simples.

Ibaneis possui recall eleitoral, estrutura partidária, conhecimento do Distrito Federal e uma extensa rede política construída durante mais de sete anos no Executivo. Em uma eleição proporcional com apenas oito cadeiras para Brasília, sua entrada alteraria os cálculos internos das chapas que disputam vagas na Câmara.

Há também um componente de sobrevivência política, porque quatro anos passam rápido… e 2030 está logo ali. Uma cadeira na Câmara permitiria a Ibaneis permanecer no debate nacional, participar das grandes votações do Congresso, defender interesses do Distrito Federal e, sobretudo, conservar uma plataforma institucional para qualquer projeto futuro.

Com idade beirando os 55 anos, não faria muito sentido, na avaliação de seus aliados, transformar a saída do Buriti numa aposentadoria precoce. O advogado que passou para o outro lado do balcão em 2019 e administrou Brasília por dois mandatos poderia agora experimentar uma função de legislador.

A eventual candidatura também permitiria uma curiosa acomodação política. Ibaneis poderia entrar na campanha sem disputar espaço com as mulheres que hoje ocupam o centro da aliança que ajudou a construir. No Buriti, Celina Leão tenta conquistar nas urnas um mandato próprio e para o Senado, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis representam as apostas do PL. A escolha das duas foi justamente um dos fatores que retiraram espaço para a candidatura senatorial que Ibaneis inicialmente pretendia apresentar.

A nova engenharia permitiria, portanto, uma fotografia improvável alguns meses atrás: Ibaneis pedindo votos para Celina, Michelle e Bia — e reservando para si o pedido de voto destinado à Câmara dos Deputados. Seria também uma forma de transformar uma derrota na montagem da chapa majoritária em possibilidade de sobrevivência eleitoral.

Nada está formalizado, é verdade, mas o relógio corre. Em política, 48 horas podem representar uma eternidade. São suficientes para ressuscitar candidaturas, reconstruir alianças e mudar destinos que pareciam definitivamente traçados. Ibaneis já governou. Já decidiu orçamento, nomeou secretários, inaugurou obras e enfrentou crises. E se prevalecer a articulação que ganhou corpo nas últimas horas entre seus correligionários, chegou a hora de experimentar o outro lado da Praça dos Três Poderes.

O ex-governador, sustentam seus aliados, pode trocar o Buriti pela Câmara. E fazer de 2026 não o ponto final de sua carreira, mas apenas a primeira página de um novo capítulo político, com 2030 já aparecendo no horizonte.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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