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A poesia não vem

Pisque duas vezes se você também está encarando uma página em branco

Publicado

Autor/Imagem:
Sarah Munck - Texto e imagem

Já faz alguns meses que não consigo escrever. E digo não é estar com a caneta nas mãos ou diante de uma tela em branco.

Já faz alguns meses que não quero escrever.

E o não querer se confunde ao fato de encontrar-me ou achar-me sem conseguir escrever. Não consigo ou não quero? Ambas são situações que se transmutam.

Recebi o convite para publicar no estimado Café Literário Notibras. Eis me aqui. Agradeço imensamente a toda a equipe pelo convite e por este precioso espaço de fala, afinal, já faz algum tempo que a minha hesitação em começar essa jornada me persegue. É porque escrever dá trabalho, afinal escrever é trabalho. E daquele tipo de ofício que carrega em si as suas periculosidades.

Em tempos de escritas plastificadas, resisto ao projeto anti-humano de um texto impecável. Aqui estou eu: esta é a minha letra, falível e viva. Me pego (e me deixem, por favor, começar a frase com esse pronome oblíquo!) pensando que nunca mais poderei usar o travessão – eu, professora de Língua Portuguesa, sempre o achei tão elegante. Quisera deixar alguns deslizes por aqui. Hoje, talvez elegância seja exatamente isso: deixar que a língua, em sua voracidade lúdica, atue como quiser.

Quem sabe a escrita seja exatamente isto: a nossa Diadorim. E, como diria Guimarães Rosa, ela é neblina.

Aqui de Minas Gerais, o sertão costuma virar mar. Esse mar que navega dentro da gente é onde a poesia não vem. Ela apenas nunca saiu do lugar.

Até a próxima.

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