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O poeta

A sacerdotisa

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Vinicius era funcionário público aposentado. Ganhava pouco, mas para um divorciado de 64 anos, que morava sozinho, dava pro gasto. E era poeta, já publicara dois livros, insucessos de crítica e de público. Ele não ligava, escrevia basicamente para si mesmo. Quando não estava cometendo poemas, gostava de navegar pelo Facebook. Foi o seu mal.

A nova amiga usava o nome de Acza. Ele achou estranho, mas lindo, combinava com a foto de uma mulher jovem e sedutora, de longos cabelos negros. Ela informou que estudava filosofia, ele contou que era poeta.

— Adoro poesia – teclou ela. – É praticamente tudo o que leio. Você tem livros publicados?

— Tenho dois, mas você só vai encontrar em sebos – escreveu Vinicius. – E, de vez em quando, posto poemas no Face.

— Posso te adicionar no zap? Assim você me manda seus poemas, é melhor. E eu mando umas coisinhas…

Vinicius podia sentir um leve tom de malícia e erotismo na mensagem. Digitou o número do celular e esperou. Em menos de dez minutos…

— É Acza. Tô com desejo de ler poesia. Me faz feliz!

Ela já havia selecionado dois de seus melhores poemas e mandou p/ara a moça. Ela respondeu pouco tempo depois

— Adorei. Vou te mandar uns vídeos.

No vídeo, Acza cantava, com um sorriso sedutor, um trechinho de uma canção. Ele estava escrevendo que achou lindo, mas gostaria de ouvir até o fim, quando chegou o segundo. Ela dançava, com os seios pequeninos à mostra. Acariciava-os, tocava os cabelos, o rosto, a boca, a barriguinha, contorcia-se toda. Só aparecia a metade superior de seu corpo, mas era uma visão inesquecível.

Estudioso da mitologia celta e dos rituais neopagãos da Wicca, Vinícius identificou na moça vibrações da Deusa Tríplice, que na antiga Irlanda era cultuada sob os nomes de Anu (a Virgem), Badb (a Mãe) e Macha (a Anciã). “Uma sacerdotisa de Anu, toda encantamento e sedução”, pensou o poeta. “Uma dança erótica sagrada, sem um pingo de vulgaridade, a ser assistida com tesão e reverência.”

Nesse dia não houve mais poemas nem vídeos. Vinícius passou horas assistindo-os, gravando cada detalhe em sua mente e sonhando com Acza.

Nos dias seguintes, ele inundou-a de poemas – primeiro de seus livros, depois os mais recentes, postados nas redes. E quase se afogou em vídeos, cada vez mais sensuais, porém jamais vulgares. E, deuses, as mensagens tecladas entre um vídeo e outro, entre um poema e outro! Após um lindo vídeo de dança, em que ela estava com um vestido branco curtíssimo, ele comentou o sombreado visível entre as coxas da moça. Era um jogo de luz e sombra, uma calcinha preta ou… E esperou a resposta, torcendo pelo ou; com isso, a teria visto inteirinha.

-É calcinha preta – informou a sacerdotisa do sexo. – Eu depilo rsrs.

Vinícius passou a pensar na xaninha dela como “a maravilha depilada”.

Uma semana depois, esgotado o repertório de poemas, Vinícius passou a escrever exclusivamente para a nova musa. Sucediam-se imagens como “sacerdotisa do pecado” e “seios comoventes” (que Acza adorou).

Em algumas postagens, ela moldava frases inspiradoras de novos poemas, como “Amo a sedução. Como um poema desenhando meu corpo. Meu corpo é arte”. Ou enviava mensagens bem mais diretas: “Ao ler seu poema de amor, eu me toquei”. Isso permitiu a Vinícius fazer o mesmo, liberando uma tensão há muito acumulada – um pequeno favor dos deuses.

Às vezes, ela parecia brincar com ele como um gato brinca com um rato – uma gatinha de 23 anos e um ratão de 64. Ela escreveu certa vez: “Só me relaciono com homens acima de 45”. Foi como se ela colocasse a bola na marca do pênalti e implorasse, “Chuta, faz o gol, nem vou tentar defender”. Mas ele não ousou, só dá pra encarar uma sacerdotisa de Anu quando se tem certeza de um desempenho digno do herói irlandês Cuchulainn.

Vinte dias depois do primeiro contato, Vinicius estava um bagaço. Pensava na moça o tempo todo, tocava-se o tempo todo, escrevia sem parar, mas seus neurônios ameaçavam entrar em greve, sua poesia piorou visivelmente. Então, exigiu/implorou que a moça viesse ao Rio de Janeiro encontrá-lo.

— Mas eu moro em Manaus! – respondeu ela.

— Mando passagem de avião.

Trocaram nomes completos, endereços, RGs e CPFs, toda a parafernália para emitir a passagem. E então ele esperou.

Quatro dias depois, ela tocou a campainha de seu apartamento. Ele abriu a porta, e engoliu em seco em ver aquela mulher linda, de feições delicadas e olhos luminosos.

— Entre – murmurou com voz rouca.

Ainda sem ousar beijá-la, temia perder a cabeça e ofender aquela deusa da sedução, pediu que sentasse. Mas ficou de pé, não aguentou e falou.

— Moça, não aguento mais. Não como, não durmo, só penso em você. Que que eu faço pra ter você em meus braços?

Acza o pegou pela mão e o trouxe para perto dela.

— Podia ter me chamado antes. Mandei dezenas de vídeos, dei tantas mostras de que estava a fim de você…

Ainda sentada, ela abriu sua calça e o pôs na boca, até senti-lo duro como pedra. Depois levantou-se e tirou a roupa dele e a dela. Arrastou-o para o sofá e começaram a se beijar e se tocar.

Naquele momento, ela incorporou as manifestações da Deusa Tríplice. Anu, a sedutora, queria ter prazer com o parceiro, enquanto Badb, a Mãe, compassiva, desejava fazê-lo feliz. Badb prevaleceu; com uma sabedoria feminina imemorial irradiada por Macha, a Anciã, a jovem percebeu que Vinicius estava tenso demais para preliminares que a deleitariam. Deitou-o no sofá e o envolveu com sua vagina.

Por uma dádiva especial dos deuses, o poeta não explodiu em prazer, como temia, e prestou as devidas homenagens à maravilha depilada.

Comovida, a Deusa observou a entrega total de seu devoto, e lhe proporcionou o mais prazeroso, intenso e prolongado orgasmo de sua vida. Mas as divindades cobram um alto preço por seus favores e, logo depois de chegar ao clímax, o poeta teve um infarto fulminante.

Vinicius morreu com um sorriso nos lábios, a lança em riste cravada bem fundo. E seguiu, feliz, para o paraíso dos heróis celtas, domínio dos valentes guerreiros tombados em combate, que ali convivem com os deuses.

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