Curta nossa página


Marcas

O corpo também tem memória

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Le Breton talvez nos lembrasse que o corpo nunca é apenas biologia.

Ele carrega marcas.

Aprende gestos.

Obedece regras.

Expressa aquilo que a boca nem sempre consegue dizer.

O corpo cansado sabe coisas que a cabeça insiste em ignorar.

A postura muda.

O sono desaparece.

A fome aumenta ou diminui.

Os ombros pesam.

E ainda assim seguimos dizendo: “está tudo bem”.

É curioso como aprendemos a falar sobre saúde sem necessariamente aprender a escutar o próprio corpo.

Passamos anos treinando o corpo para caber em roupas, horários, padrões e expectativas.

Depois reclamamos que ele não sabe mais descansar.

Talvez porque descanso também tenha sido transformado em produtividade.

Até descansar precisa ser eficiente.

Meditação de quinze minutos.

Exercício às seis.

Alimentação planejada.

Sono monitorado.

Hidratação registrada.

A pessoa não vive.

Ela administra indicadores.

E, em algum momento, o corpo simplesmente apresenta a fatura.

Não por vingança.

Por memória.

Porque aquilo que a sociedade exige de nós também atravessa a carne.

Talvez seja necessário reaprender uma coisa bastante antiga: o corpo não é uma máquina que temos.

É também uma forma pela qual existimos no mundo.

E, às vezes, ele sabe antes de nós que alguma coisa precisa mudar.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.