Curta nossa página


Obsessão contemporânea

A vida não é um currículo

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma obsessão contemporânea em transformar a própria existência em currículo.

Curso.

Cargo.

Viagem.

Idioma.

Projeto.

Produtividade.

Conquista.

Como se a vida precisasse apresentar resultados trimestrais.

A pessoa pergunta: “O que você fez este ano?”

Às vezes eu tenho vontade de responder:

“Sobrevivi.”

Mas imagino que não seja uma resposta suficientemente competitiva para o LinkedIn.

Vivemos em uma cultura que transformou até o descanso em fracasso.

Se você para, está atrasado.

Se muda de caminho, está perdido.

Se recomeça, deveria ter planejado melhor.

Se não alcançou determinado objetivo aos trinta, parece que perdeu o prazo de validade.

É uma lógica cruel.

Porque ignora aquilo que não pode ser colocado em currículo.

Cuidar de alguém.

Atravessar um luto.

Aprender a dizer não.

Perdoar.

Reconstruir uma amizade.

Deixar uma relação.

Descobrir quem você é depois de uma grande mudança.

Nada disso oferece certificado.

Mas talvez seja justamente aí que esteja a parte mais importante da vida.

Não somos apenas aquilo que conseguimos produzir.

Somos também aquilo que conseguimos sustentar humanamente.

E talvez uma existência boa não seja aquela que acumula mais conquistas.

Talvez seja aquela em que, apesar de tudo, ainda conseguimos reconhecer algum sentido no caminho.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.