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Amando na chuva

A porta da sala que Helena deixou entreaberta

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Autor/Imagem:
Netty Scorp - Foto produzida com colaboração da IA

Há uma frase de que Helena sempre gostou, embora nunca soubesse exatamente quem a havia inventado: um eterno pode durar trinta segundos. Ela achava bonito, talvez porque houvesse amores inteiros que não sobrevivessem a uma madrugada e instantes tão pequenos que permanecessem dentro da gente por uma vida.

O eterno de Helena durou algumas semanas, ou talvez tenha começado numa noite e nunca mais terminado. Até porque, naquele tempo, estava cansada de gente. Não das pessoas propriamente, mas do ruído que algumas delas carregavam. Das conversas que começavam em lugar nenhum e terminavam no mesmo vazio. Das visitas feitas por obrigação. Dos telefonemas sem assunto. Das gargalhadas excessivamente altas escondendo vidas excessivamente rasas.

Helena tinha muitos amigos e, paradoxalmente, começou a sentir necessidade de ficar sozinha. Então desapareceu, fechou-se em casa, desligou-se das rodas, recusou convites e resolveu experimentar a palavra solitude, que aprendera a amar. E nesse intervalo, curiosamente, ninguém apareceu.

Os amigos sabiam que ela estava sozinha. Alguns mandaram mensagens. Outros certamente imaginaram que logo passaria. Mas ninguém tocou sua campainha para perguntar:

— Helena, está tudo bem?

Ela não se magoou, ou simplesmente fingiu que não.

Passou a ocupar os dias com seus livros de poesia, e as noites com jazz e blues. Gostava principalmente daquele instante em que o saxofone parecia conversar com a madrugada, ocasiões em que preparava chá, colocava alguns sequilhos num pequeno prato e sentava-se à mesa.

Havia certa sensualidade naquela solidão. Uma mulher, um livro aberto, uma xícara fumegante e uma música lenta atravessando uma sala silenciosa. Helena começava a descobrir que a solidão, quando escolhida, também pode acariciar.

Foi numa dessas noites que aconteceu. Ela havia esquecido a porta da sala entreaberta. Estava mergulhada num poema quando percebeu uma sombra se aproximando. Levantou os olhos.

Um homem estava parado diante dela. Helena se assustou, e ele também pareceu constrangido.

— Perdão.

Ela permaneceu imóvel.

O desconhecido era alto, bem vestido, elegante sem parecer preocupado em demonstrar elegância. Tinha o tipo de olhar que primeiro observa e só depois fala.

— Vi a porta aberta. Chamei, mas acho que a senhora não ouviu.

Helena retirou os óculos lentamente.

— E resolveu entrar?

Ele sorriu.

— Resolvi avisar que é perigoso deixar uma porta assim. Um indivíduo qualquer poderia entrar aqui.

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos.

— Mas entrou você.

O homem percebeu a provocação.

— Esse é justamente o problema. A senhora ainda não sabe quem eu sou.

Helena sorriu pela primeira vez em muitos dias. Não soube explicar por quê, mas não teve medo. Talvez fosse a voz dele, ou os movimentos tranquilos das mãos, ou, quem sabe, aquela maneira respeitosa de manter distância. Ou talvez algumas pessoas tragam consigo uma estranha sensação de familiaridade, como se chegassem atrasadas a um encontro marcado muitos anos antes.

— Quer um chá?

Ele hesitou.

— Depois de invadir sua casa?

— Não chegou a invadir. A porta estava aberta.

— Entreaberta.

— Para certas pessoas é suficiente.

Os dois sorriram. Ele sentou-se, Helena serviu o chá e pediu desculpas:

— Infelizmente, acabou o último sequilho.

— Posso sobreviver sem ele.

Então percebeu o livro sobre a mesa.

— Poesia?

— Sempre.

— Também gosto.

Helena ergueu uma sobrancelha.

— Homens costumam dizer isso quando querem impressionar mulheres.

— E mulheres costumam desconfiar quando começam a se interessar por um homem?

Ela ficou em silêncio. Ele também. E naquele pequeno intervalo alguma coisa aconteceu. Nada que pudesse ser tocado, mas estava ali. Começaram falando de poesia. Depois vieram os livros, as viagens que haviam feito, as que ainda desejavam fazer, os lugares onde nunca estiveram e as saudades de coisas que talvez nem tivessem vivido.

Descobriram o jazz e depois o blues. Ele reconheceu a música que tocava e Helena ficou surpresa.

— Você conhece?

— Conheço.

— Então talvez mereça outro chá.

A madrugada avançou sem pedir licença, e Helena, que havia se afastado do mundo porque estava cansada das conversas vazias, descobriu naquela noite como duas pessoas podem conversar durante horas sem perceber o tempo.

Quando ele finalmente se levantou, ela sentiu uma pequena decepção.

— Preciso ir.

— Já?

A palavra escapou antes que pudesse ser contida. Ele percebeu e Helena notou que ele percebera. E os dois fingiram que nada havia acontecido.

— Posso voltar outro dia?

— Pode.

— Trago pastéis.

— Aceito.

— Algumas frutas.

— Também.

Ele caminhou até a porta. Helena foi atrás. Antes de sair, ele estendeu a mão. Ela ofereceu a sua. O aperto deveria durar dois segundos, mas prolongou-se por muito mais. Os dedos permaneceram unidos como se nenhum dos dois soubesse exatamente quem deveria soltar primeiro. Helena sentiu o calor da mão dele. Ele olhou para ela, depois para as mãos, fixando-se em seguida nos os olhos dela.

Houve um instante em que bastaria um pequeno movimento, um passo, talvez meio, mas nenhum dos dois atravessou aquela distância. Ainda não. Ele soltou sua mão.

— Boa noite, Helena.

Ela estranhou.

— Como sabe meu nome?

O homem sorriu.

— Boa noite.

E foi embora.

Helena permaneceu parada à porta. Somente alguns minutos depois percebeu algo ainda mais absurdo. Não sabia o nome dele. E nos dias seguintes, retomou seu ritual com livro, jazz, blues, chá, sequilhos. Mas agora havia outra coisa sobre a mesa. Era a angustiante espera.

A cada ruído no corredor, Helena levantava os olhos. A cada sombra, seu coração se antecipava.

Nada. Uma noite, duas, cinco, uma semana, duas… O desconhecido não voltou. Helena começou a acreditar que talvez tivesse inventado aquela noite, que a solidão tivesse criado um homem elegante para lembrá-la de fechar a porta, ou que ele fosse mesmo uma dessas criaturas que aparecem apenas uma vez na vida para mudar discretamente a direção das coisas.

Um anjo, pensou. Mas anjos não costumam ter mãos tão quentes, nem olhar daquele jeito. As semanas passaram e Helena continuou com os livros, as músicas, o chá. E aprendeu novamente a não esperar.

Até que, certa noite, começou a chover. Era uma chuva fina, dessas que parecem deixar a cidade mais íntima. Helena estava sentada à mesa quando ouviu três batidas. Seu coração reconheceu antes dela.

Caminhou lentamente até a porta. Abriu. Era ele, roupas e corpo molhados pela chuva. Nas mãos, uma pequena sacola.

— Pastéis — disse.

Helena não respondeu.

— E frutas.

Ela continuou olhando.

— Demorei um pouco.

— Algumas semanas.

— Você contou?

— Não.

Mentiu. Ele sorriu.

— Posso entrar?

Helena abriu mais a porta.

— Ela nunca esteve fechada para você.

Ele entrou. Dessa vez, porém, não houve susto, nem explicações. Ele colocou a sacola sobre a mesa e Helena ficou diante dele. Perigosa e carinhosamente perto.

— Ainda não sei seu nome — disse ela.

Ele falou baixinho. Ela repetiu o nome, quase num sussurro, como quem experimenta uma palavra que pretende guardar. Então veio aquele silêncio outra vez. O mesmo da primeira noite, só que agora nenhum dos dois parecia disposto a desperdiçá-lo.

Ele tocou delicadamente o rosto de Helena, se pressa. Ela fechou os olhos por um instante e inclinou o rosto contra aquela mão que havia esperado durante semanas. Quando tornou a abri-los, ele estava ainda mais perto.

— Posso?

Helena sorriu.

— Você entrou na minha casa sem pedir.

— Foi diferente.

— Foi.

— E agora?

Ela não respondeu.

Apenas encurtou a pequena distância que ainda existia entre os dois. O beijo começou tímido, quase respeitoso, como havia sido o aperto de mão da primeira noite. Depois demorou-se. Tornou-se quente, lento, carregado de tudo aquilo que as semanas haviam deixado suspenso.

Helena sentiu os braços dele envolvendo sua cintura, e descobriu que também existem abraços capazes de abrir portas. Quando se separaram, continuaram com as testas encostadas. O jazz ainda tocava e o chá esfriava sobre a mesa, enquanto os pastéis permaneciam esquecidos dentro da sacola.

— Você vai embora outra vez? — ela perguntou.

Ele acariciou seus cabelos.

— Se você pedir.

Helena olhou para a porta, depois para ele, caminhou até lá e a fechou. Pela primeira vez em muitas semanas, girou a chave. Ele sorriu.

— Agora resolveu seguir meu conselho?

Helena voltou devagar, parando diante dele.

— Resolvi.

— Finalmente vai manter a porta fechada?

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele.

— Para o mundo, sim.

E beijou-o novamente.

Naquela noite, Helena entendeu a frase que durante tantos anos repetira sem compreender. Um eterno realmente pode durar trinta segundos, pode durar um beijo, um olhar, um aperto de mão diante de uma porta. Pode durar algumas semanas ou começar numa noite qualquer, quando um desconhecido encontra uma porta entreaberta e uma mulher cansada do mundo encontra, justamente no silêncio, alguém com quem deseja conversar pelo resto da vida.

Ele voltou. E ficou. Quanto ao “para sempre”, Helena nunca mais tentou medir. Porque alguns momentos eternos não precisam durar toda a vida. Basta que, enquanto durem, façam o tempo esquecer de passar.

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