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Vozes da Literatura

A coragem criativa da escritora Lina Veira

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

Aos 40 anos, a engenheira cedeu lugar em definitivo à escritora. Ao acolher a literatura como um ato de coragem e empatia por si mesma após a maternidade, Lina Veira transformou sua trajetória pessoal e profissional ao assumir publicamente a sua verdadeira identidade: “Sou autora”. Com uma escrita essencialmente poética que transita com fluidez entre a poesia, a crônica e o romance, ela mergulha nas complexidades da natureza humana e na observação atenta do cotidiano para dar vida a narrativas que buscam provocar uma verdadeira revolução na vida de quem as lê.

Nesta edição de Vozes da Literatura, a autora e colunista do Jornal Cultural ROL abre os bastidores de seu processo criativo, marcado por revisões minuciosas, pela paixão em ser dominada por seus próprios personagens e pela realização de oficinas de memorização criativa. Defensora do papel vital da imprensa independente, Lina também reflete com candura sobre os desafios invisíveis do mercado literário contemporâneo, as barreiras da falta de remuneração justa para os escritores e a importância de encarar a escrita não como uma fórmula pronta, mas como uma autêntica escolha de vida. Confira a entrevista completa a seguir.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua trajetória? O que o levou a tornar seus textos públicos?

Não tenho um primeiro gesto, tenho muitos gestos decisivos em toda minha trajetória desde pequena, mas a atitude pontual que mudou o rumo da minha história pessoal, profissional e coletiva, foi acolher a literatura, a escrita de forma corajosa e priorizada depois de meu segundo filho. Quando me vi com 40 anos sem mais realizar nada que me abastecesse com prazer e felicidade. Um ato de empatia na hora certa por mim, uma decisão de abandonar ou não destacar mais a área da engenharia na minha vida como sonho e plano de vida. HOJE AFIRMO: SOU AUTORA.

Escrever sempre foi uma necessidade para mim, e eu me acolhi. Meus textos sempre foram públicos desde adolescência em bloggers. Depois com o livro publicado veio convites para Revistas em Portugal, Jornal Cultural Rol e outros. Mas confesso, pouco aceito pois não vem com ajuda de custo.

“Um escritor precisa estar sempre estudando, lendo, atualizando assuntos e temáticas”

Entre conto, crônica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual gênero você encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

A liberdade para expressar preferências não depende de uma identidade de gênero especifica, mas de contextos seguros, sociais e de conhecimento que tenha. Um escritor precisa estar sempre estudando, lendo, atualizando assuntos e temáticas. Sou poeta, cronista, romancista. Minha escrita é poética em todas elas, mas nem sempre é uma poesia.

“Sempre fui muito observadora do cotidiano, da leitura e biografia de muitos autores”

Quais são as fontes mais recorrentes de sua escrita: experiências pessoais, observação do cotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes ou algo diferente?

Sempre fui muito observadora do cotidiano, da leitura e biografia de muitos autores, da nossa literatura e de memórias. Gosto de momentos reais desenvolvidos, lembranças do passado e de novas ideais. Mas a NATUREZA HUMANA, o mar é como oração e inspiração para mim.

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

O trabalho na literatura não me sustenta economicamente, ainda. Mas sou produtora de eventos e feira na cidade. Tenho datas a cumprir o ano todo. E isso fortalece todo movimento com autores e a escrita.

Quando trabalha com ficção narrativa, como você descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a história?

A personagem toma decisões inesperadas sim. Descubro os desejos, medos e segredos de uma personagem analisando o conflito central da trama e os subtextos do diálogo. Amo ser dominada por meus personagens e ser livre na escrita.

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

FAÇO MUITAS REVISÕES.

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou — ou confirmou — em sua relação com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

O jornal é sério, e confirma a importância da divulgação literária, transformando a escrita solitária da Lina e de outros em um ato de diálogo vivo com o público e promovendo um senso de pertencimento e troca comunitária entre escritores da língua portuguesa. Fortaleceu novos contatos e leitores.

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

No geral, meus leitores me deixam feedback e são revolucionários.

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

São projetos literários importantes ao alcance do autor e leitor. Contudo, barreiras como a falta de remuneração justa e a exclusão digital ainda limitam o alcance real, entre outros como conhecer o algoritmo.

Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no Café Literário/Notibras: que diferenças você percebe entre esses públicos e entre as formas de recepção dos textos em cada veículo?

Não tenho essa comparação, escrevo para o Rol apenas.

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

Tudo tem a ver com o propósito do jornal. Mas convivência com muitos fluxos cria um espaço plural que amplia o acesso à literatura e dá visibilidade a novos autores. Contudo, para um jornal eu considero artigos e crônicas essenciais.

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado — e qual você considera superestimada?

Não existe manual e acertos, existe nome, trabalho, história, competência. Abrir portas minimiza obstáculos.

 Ao imaginar alguém lendo sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

Revolução de vida.

Há um projeto em curso — livro, coletânea, pesquisa, novo gênero, revista, oficina ou outra iniciativa — que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?

Meu projeto de oficinas da obra Citações, que traz o exercício da memorização criativa em oito passo tem me gerado conclusões assertivas sobre a importância da leitura e escrita na vida das pessoas. As pessoas que participam da oficina se surpreendem com a importância do exercício e da literatura nas suas vidas. Ativando a memória os exercícios ajudam na saúde mental e na pratica da escrita.

Que prática, escolha ou disciplina você recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita você considera insuficiente ou enganoso?

A escrita precisa ser uma escolha de vida e gerar prazer. Sem isso tudo será enganoso e inútil.

Que pergunta sobre sua escrita ou sobre a literatura contemporânea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda não apareceu?

Gostaria de participar mais de entrevistas para falar sobre minhas obras, e projetos literários na cidade, mas raramente aconteceu, apesar de se realizar entrevistas com autores de todo Brasil desde 2019 no quadro, SÁBADO COM POESIA, no meu Instagram. Poderíamos realizar uma entrevista com você? CONHECER MELHOR SEU TRABALHO E PROJETOS LITERÁRIOS.

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Autora e colunista do Jornal Cultural Rol : LINAVEIRA
Instagram: @linaveira

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