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Rio Grande do Sul

A terra e a espera

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Autor/Imagem:
Gil DePaula - Foto Francisco Filipino

O Rio Grande do Sul era grande demais para caber nos olhos de um menino. Quando Pedro subia a pequena coxilha e olhava o horizonte, parecia que o mundo terminava onde o céu tocava a terra. Só havia campo verde no verão, dourado no outono, branco de geada no inverno.

Pedro gostava daquele mundo e ao mesmo tempo temia-o. Conhecia cada trilha, cada arroio, o cheiro da terra depois da chuva. Mas quando a noite chegava, o campo parecia imenso demais — principalmente depois que o pai foi embora.

Partiu numa manhã de inverno. Pedro tinha oito anos. O frio gelava a água no balde e o minuano fazia as portas baterem. O pai selava o cavalo no galpão.

— O senhor vai pra onde?

— Pra longe.

— Volta hoje?

— Não sei.

— Amanhã?

— Também não sei.

— Então quando?

— Quando puder.

— Posso ir junto?

O pai sorriu com tristeza.

— Tu ainda é pequeno. Fica cuidando da tua mãe. Um dia tu vai entender.

Montou e partiu. Pedro correu até a porteira. Primeiro viu o pai, depois só o cavalo, depois nada. Aprendeu então que alguém pode desaparecer diante dos nossos olhos sem morrer. Simplesmente foi embora. E não voltou.

A mãe nunca falava sobre isso. Sempre dizia apenas: — Teu pai precisou partir. A vida às vezes obriga. Vamos esperar.

Esperaram dias, meses, anos. A cadeira do pai permanecia junto ao fogão, intocada. Ninguém a ocupava. Pedro cresceu olhando para ela e começou a odiar aquela cadeira — não o pai. A cadeira, sempre ali, vazia, como uma pergunta sem resposta.

A vida na estância era dura. Pedro acordava antes do sol. Aprendeu cedo que a terra não dá nada de graça: para comer, planta; para ter leite, cuidar da vaca; para atravessar o inverno, guarda lenha. E quando a chuva não vem, o homem pode trabalhar o dia inteiro e terminar com as mãos vazias.

Conheceu a pobreza sem saber o nome. Sabia que as botas eram remendadas, o casaco herdado do pai, e que quando a carne era pouca, a mãe dizia: — Eu não tô com fome. Só muito depois compreendeu que mãe quase nunca diz a verdade quando fala assim.

Mas havia momentos de beleza. No verão, o sol cobria as coxilhas de ouro, os cavalos corriam soltos. Pedro subia o morro, abria os braços e gritava: — Eu sou dono do mundo! E ria sozinho. Pelo menos daquele pedaço, era.

No inverno, o campo brancava de geada e o vento cortava como lâmina. Pedro se encolhia junto ao fogo, ouvindo a lenha estalar, sentindo o cheiro do café e o pão quente. Era quando o avô vinha com o chimarrão e histórias — guerras antigas, Bento Gonçalves, Garibaldi. Mas Pedro preferia as lendas, sobretudo a do Negrinho do Pastoreio.

— Me conta de novo, vovô? — pedia Pedro, achegando-se perto do fogo.

E o avô começava, com voz calma:

— Diz a lenda que o Negrinho foi um menino escravo que cuidava do gado nas campinas. Um dia, perdeu o melhor cavalo do patrão. O homem, cruel, o castigou muito. Deixou-o descalço na geada, sem comer, sob o frio cortante do minuano. O menino rezou e rezou. Quando o sol nasceu, ele desapareceu. Não foi encontrado em lugar nenhum. Dizem que subiu ao céu e virou protetor dos que andam pelo campo.

— E ele cuida dos outros meninos? — perguntava Pedro, com os olhos brilhando.

— Cuida, sim. E também de quem perdeu alguma coisa por aqui. Dizem que quando alguém perde algo nos campos, basta ajoelhar-se e pedir com fé: “Negrinho do Pastoreio, me ajuda a achar”. Ele aparece, montado num cavalo branco, devolve o que se perdeu e segue seu caminho.

— Ele sempre encontra?

O avô sorriu e mexeu nas cinzas do fogo.

— Às vezes não devolve exatamente a coisa que se procura. Às vezes a gente acha que perdeu uma coisa, mas perdeu outra bem maior. E é essa outra que o Negrinho nos ajuda a encontrar.

Pedro não entendia muito bem aquelas palavras. Até o dia em que o cusco de pelo castanho que o pai lhe dera antes de partir desapareceu. Procurou o dia inteiro, subiu coxilhas, percorreu o arroio, entrou no capinzal — nada. Ao entardecer, com o coração apertado, ajoelhou-se junto a uma cruz de madeira esquecida à beira do caminho e repetiu baixinho, com vergonha e fé:

— Negrinho do Pastoreio… se tu existe, me ajuda. Devolve meu cusco.

Voltou para casa cabisbaixo, com os olhos úmidos — e encontrou Trovoada parado na porteira, roendo um osso, tranquilo, como se nunca tivesse saído dali.

— Onde esteve, guri? — perguntou a mãe, vendo-o abraçar o pescoço do cachorro.

Pedro acariciou a cabeça do animal e pensou nas palavras do avô. Depois respondeu, devagar:

— Procurando uma coisa que eu pensei ter perdido. Mas encontrei outra.

Pedro cresceu. O pai nunca voltou. Um dia deixou de dizer quando meu pai voltar e passou a dizer apenas meu pai. A esperança começava a envelhecer. Certa noite perguntou:

— Ele foi embora porque não gostava da gente?

A mãe calou-se. Depois disse que não, que o pai o amava. Mas ao ouvir então por que foi?, ela não soube responder. Foi a primeira vez que Pedro a viu chorar em silêncio. Encostou a cabeça no ombro dela e, naquele instante, deixou de ser apenas filho — tornou-se companheiro da sua tristeza.

Anos depois, achou num baú um livro de Érico Veríssimo. Leu com dificuldade, parando nas palavras difíceis. E então encontrou ali, escrito, tudo que conhecia: a terra, as famílias, as partidas, as mulheres que esperam. Conheceu Ana Terra e Pedro Missioneiro e se viu lutando ao lado do Capitão Rodrigo. Compreendeu que o Rio Grande também é feito de histórias — e que ensina a amar aquilo que também pode ferir.

Já homem feito, voltou àquela coxilha. O campo era o mesmo, o vento também. Sentou-se, pegou um punhado de terra e pensou no pai. Por anos julgou sentir raiva — agora percebeu que era saudade. Saudade de quem não chegara a conhecer. Falou baixinho ao vento:

— Esperei muito tempo, pai. Mas aprendi a viver.

Compreendeu então o que o avô quisera dizer: a terra não pertence apenas a quem nasce nela — pertence também às lembranças que se deixa sobre ela. Deixara ali a infância, os medos, o fogo, o som dos cascos, a voz da mãe, as histórias, a espera.

O sol se punha dourado sobre as coxilhas. Imaginou o menino que corria de braços abertos. Ele ainda estava ali — crescera, mas não partira. E Pedro entendeu: não amava os pampas apesar de tudo que sofrera. Amava justamente porque fora ali que aprendera a sofrer sem deixar de amar.

A vida pode ser dura como o inverno e ainda assim guardar a promessa da primavera. Um homem pode partir e deixar ausência. Uma mãe pode esconder a fome para alimentar o filho. E basta pisar na terra depois de muitos anos para o coração reconhecer o caminho.

Desceu a coxilha. Lá embaixo, a casa acendia luzes, a fumaça saía da chaminé. E no ar, entre o brilho do entardecer e o sopro suave do vento, ele a sentiu — tão viva quanto sempre fora, envolta numa luz serena e doce, jovem e sem cansaço, com aquele olhar que sempre o amou em silêncio. Não a via com os olhos do corpo, mas sentia-a perto, como se estivesse ali, aquecendo a água para o mate, cuidando dele como fizera a vida inteira. E o coração dele se encheu de um amor imenso, maior que o tempo, maior que a distância — amor por ela que jamais o deixara.

O minuano começava a soprar. E o menino dos pampas, que um dia aprendera a esperar, voltava para casa levando consigo a única coisa que o tempo não conseguiu levar: o amor pela terra onde aprendeu, apesar de tudo, a ser quem era.

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