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Pistoleiros

O duelo

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O cenário, uma cidadezinha perdida do oeste dos Estados Unidos, com uma única rua em meio à pradaria, além de umas poucas vielas que nela desembocavam. O evento, um duelo entre dois pistoleiros. Seus nomes verdadeiros permanecem desconhecidos; respondiam, na ocasião, por Wild Bill Flanagan e Tom McLeod. A primeira denominação de origem irlandesa, a segunda, escocesa, seus portadores bem podiam ter vindo dessas plagas. Ou não, tanto fazia.

Também não era importante o motivo do confronto. Homens perigosos, achavam que só havia lugar para um deles no vilarejo. E cada um estava disposto a ser o único sobrevivente.

Foi por isso que, na hora combinada, os dois vieram de lados opostos da única rua. Caminhavam com o olhar colado no do rival. A distância entre eles diminuía a cada passo; quando estavam a menos de 20 metros, sacaram dos revólveres e começaram a disparar. O chumbo comeu solto, mas, apesar da perfeita pontaria de ambos, nenhum deles acertava o alvo; parecia que uma força misteriosa desviava os projéteis.

De repente, um deles envolveu-se em uma espécie de casulo de luz.

“Um bruxo”, constatou o outro com um sorriso desdenhoso. “Eu bem que desconfiava”.

Fez o mesmo, e os dois casulos luminosos avançaram até se tocar, lançando faíscas em todas as direções. Agora, em vez dos revólveres, os dois empunhavam varinhas mágicas. O combate prosseguiu, ainda mais feroz que antes, em vários planos etéreos. Em um deles, lutavam cascavéis e outras serpentes venenosas das pradarias. Em outro, engalfinhavam-se mantícoras, grifos e outros animais de pesadelo. As mais letais das armas eram as saraivadas de energia lançadas pelas varinhas, na dimensão dos humanos. Como era previsível, nenhum desses conflitos teve vencedor. Animais míticos e peçonhentos neutralizavam-se, matavam, morriam e sumiam, enquanto os dois bruxos, parcialmente protegidos pelos casulos, esquivavam-se dos mortíferos disparos de energia.

“Trégua?” propôs telepaticamente um deles, ofegante. “Trégua”, aceitou o outro, igualmente exausto.

Declararam seus nomes de bruxos e começaram a trocar informações. Um provinha de uma estirpe de bruxos irlandeses; o outro, de uma longa sucessão de magos das Highlands da Escócia. Entendiam-se com facilidade, pois falavam as variantes irlandesa e escocesa do gaélico, idioma de origem celta. A certa altura, um deles observou:

— O problema é que, tanto entre pistoleiros quanto entre bruxos, só pode haver um, dominante, em cada localidade. Nenhum de nós vai ceder, sei disso. O que significa que seremos obrigados a retomar a luta… – e suspirou, desanimado.

— E se não houver nenhum? – replicou o outro, com um sorriso. – E prosseguiu:

— Nenhum de nós é daqui. Vim para conhecer o faroeste…

— Eu também. Que coincidência! – cortou o outro.

— …e não acho a menor graça em combater até a morte nesse fim de mundo – retomou o discurso. – Que tal se nós dois voltássemos a nossas dimensões de origem?

Houve um longo silêncio, finalmente quebrado.

— Aceito. E não apenas porque você é o melhor lutador que já enfrentei…

— Ia dizer o mesmo de você…

— … mas porque morrer nesse lugar de merda, ninguém merece.

— Então vamos partir. E se os deuses nos reservarem um reencontro em nossos planos, aí sim, lutaremos até cair.

— Sem dúvida. Mas espero que nunca mais nos vejamos.

Os casulos cintilaram bem forte e se desmaterializaram, levando os bruxos em seu interior. E o pessoal do vilarejo, que nada vira da luta após a surgimento dos envoltórios luminosos, ficou sem entender coisa alguma.

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