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Crime sem rosto

Brasileiro que nega a corrupção é ruim da cabeça ou doente do pé

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

No meu tempo de menino, os candidatos a políticos se utilizavam de santinhos, comícios, das difusoras, das emissoras de rádio e televisão e dos anúncios nos jornais para se apresentarem ao chamado grande público que votava. Hoje, três ou quatro décadas depois, a apresentação de boa parte deles se limita ao noticiário policial. É o congraçamento da corrupção entre os vários níveis de excelência. Crime sem rosto, a corrupção, conforme o filósofo italiano Umberto Eco, é a insipidez da carne do ser humano.

Em tempos de eleições presidenciais e parlamentares, a corrupção grassa em todas as regiões do Brasil. Afinal, como a legislação eleitoral permite campanhas milionárias, alguém terá de pagar a conta dos eleitos. O alguém somos nós, contribuintes. Os que não forem eleitos, provavelmente morrerão de inanição política. Não precisa ter mestrado ou doutorado em Harvard para saber que cidadão ou empresário algum doa tanto dinheiro para uma campanha eleitoral à toa. Em nenhum lugar do mundo há tanto idealismo.

Eis aí o embrião da corrupção, cuja negação só tem dois sinônimos: fanatismo excessivo e conivência explícita, aplicada àqueles que vivem de favores dos corruptos.  Em resumo, o brasileiro que nega a corrupção “é ruim da cabeça ou doente do pé”. Portanto, embora muitos não aceitem a tese dos estudiosos do caráter humano, a corrupção política evidentemente é uma consequência das escolhas do povo. E por que a maioria não vê solução para a endemia da corrupção? Porque só a minoria consegue ver o desvio de conduta como um problema. Simples assim.

Até que haja um cataclisma, pelo menos no Brasil acabar com a corrupção é o objetivo supremo daqueles que ainda não chegaram ao poder. Que o diga aquele candidato extremista à Presidência da República. Justamente ele que, de acordo com declaração de rendimentos encaminhada na quinta-feira (13) à Justiça Eleitoral, aumentou seu patrimônio em 370% em comparação ao que ele havia declarado em 2018, quando foi eleito senador pelo Rio de Janeiro. Matematicamente, com apenas um mandato, a conta dele só somou.

O valor apresentado pelo presidenciável extremista ao TSE é de R$ 8,1 milhões, incluída a casa que ele comprou no Lago Sul, em Brasília, por R$ 6,2 milhões. O mais interessante é que, após três mandatos presidenciais, o candidato a quem o postulante em questão chama de ladrão declarou um patrimônio de R$ 4,7 milhões em bens, quase metade do adversário. Romeu Zema (Novo) é o mais aquinhoado de todos, com um patrimônio de R$ 178 milhões em bens.

Mesmo fartos de saber que corrupção é uma atitude inescrupulosa e capaz de transformar homens em ratazanas, nossos políticos, notadamente os parlamentares, não parecem dispostos a combatê-la. Nos discursos, eles até admitem isso para o eleitorado, desde que não seja a sua. O resultado é o acelerado crescimento da roubalheira institucional e do apoderamento do dinheiro público para fins privados. Uma pena, mas no Brasil de 2026 há ladrões por todo lado. A diferença entre um ladrão e um político corrupto é que o primeiro não foi eleito por ninguém.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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