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Dor lombar

Consumismo que faz sorrir provoca choro

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Tenho uma curiosa experiência acumulada em lugares para os quais não demonstro a menor vocação. Ciudad del Este, 25 de Março, Bom Retiro, Feira da Sulanca, Feira do Paraguai, em Brasília, e até os outlets americanos, onde o consumismo ganha estacionamento organizado e a gente se sente um pouco mais elegante fazendo basicamente a mesma coisa.

Por razões que não interessam à economia nem ao leitor, acabo entrando nesses lugares. Quase sempre vou sorrindo. O problema é a saída.

Não tenho talento para compras. Quando preciso de alguma coisa, sei o que quero, encontro, pago e considero encerrada a programação. Só que geralmente estou acompanhado de pessoas que tratam a compra como experiência cultural e precisam conhecer todo o acervo antes de deixar o recinto.

É quando surge o temido “vamos só dar uma olhadinha”, expressão que não guarda qualquer relação com o funcionamento dos olhos e pode significar de vinte minutos até o fechamento do comércio.

Como já concluí minhas atividades, sou reaproveitado como carregador. Uma sacola, duas, três e logo começo a perder direitos básicos, como consultar o celular, pegar os óculos ou coçar o nariz. Enquanto os compradores ganham entusiasmo, eu vou perdendo movimentos.

Existe ainda a encomenda, modalidade que permite a alguém participar do consumo sem enfrentar suas consequências físicas. Basta dizer que vai a algum desses lugares para ouvir o perigoso “já que você vai…”. Depois vêm o perfume, o tênis, o eletrônico ou aquela coisinha pequena, baratinha e facílima de encontrar que invariavelmente não é pequena, barata nem fácil de encontrar.

Talvez por passar boa parte dessas peregrinações com as mãos ocupadas, comecei a usar mais os olhos. Vejo gente comprando sem fazer contas e gente contando cada nota, comparando preços, pedindo desconto e saindo feliz com uma sacola na mão.

Já me perguntei por que alguém com dinheiro contado compra aquilo de que aparentemente não precisa, até perceber que talvez a arrogância estivesse na pergunta. Uma compra pode não resolver problema algum e, ainda assim, melhorar uma tarde.

Foi daí que me ocorreu uma associação com as bets e o Tigrinho. Não são a mesma coisa, evidentemente, mas ambos parecem conversar com essa nossa disposição de procurar pequenas compensações para uma realidade que nem sempre ajuda. A diferença é que, depois da compra, sobra alguma coisa na sacola. Depois da aposta, pode sobrar apenas a vontade de tentar outra vez.

Talvez seja essa expectativa que faça tanta gente ir sorrindo mesmo correndo o risco de sair chorando. Eu também. Só que normalmente saio carregando o prejuízo dos outros. E o meu é lombar.

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