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Genial

Chico Buarque: dois discos antológicos

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Fotos

Francisco Buarque de Holanda, o CHICO. Músico dedicado e escritor, poeta e intelectual genial.

Caro leitor/leitora, Peço licença para recortar dois trabalhos de Chico, dois discos marcantes, “Sinal Fechado” (1974) e “Meus Caros Amigos” (1976). São duas crônicas litero-musicais que publicaremos aqui no Café Literário.

Vamos lá?

“SINAL FECHADO” (1974)

Disco pós-auto exílio na Itália. O disco abre com homenagem a dois amigos geniais da Tropicália, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

A primeira canção é “Festa imodesta”, de Caetano: uma celebração mesmo em tempos de pesada ditadura.

A segunda é filosofia pura, de Gil: “Copo Vazio”. “É sempre bom lembrar / que um copo vazio / está cheio de ar”. É a busca do sopro de esperança na poesia e na música contra a censura dos militares e da elite brasileira conservadora e mesquinha.

A terceira é “Filosofia”, um clássico da MPB de Noel Rosa. Melodia amargurada, em tom menor, na zona da tristeza: “Mas a filosofia / hoje me auxilia / a viver indiferente assim”.

A quarta canção é um lindo acalanto, “O filho que eu quero ter”, de Toquinho, querido amigo e parceiro de Chico inclusive exiliados juntos na Itália. A letra é de outra grande: Vinícius de Moraes.

A quinta é “Cuidado com a outra”, samba de Nelson Cavaquinho e Augusto Tomaz Jr. É a saga de um homem abrindo a porta para acolher uma mulher, por ser dia das mães. Mas com a doce ironia: “Mas deve ser breve, “que a outra pode lhe encontrar”. Samba lindo, que fala de perdão e algum “respiro” com a barra pesada daqueles anos.

A sexta música é também um samba popular sobre o mundo, sobre o amor e a persistência do viver. “Lágrima”, de Sebastião Nunes e José Garcia.

*A sétima é outro samba, “Acorda, amor”, também de origem popular, e vem assinado por Leonel Paiva e um tal de JULINHO DA ADELAIDE. Este é caso especial que explicarei ao final desta crônica.

A oitava faixa é “Lígia”, canção e letra de Tom Jobim. Um samba-canção que já nasceu clássico e se perpetuou na interpretação de Chico.

A nona música é outro samba bem popular, “Sem compromisso”, de Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira. Velha Guarda do samba carioca e da malandragem.

A décima faixa é “Você não sabe amar”, do incrível Dorival Caymmi com Carlos Guinle e Hugo Lima. Canção delicada que fala de amor, desamor, queixas e a desilusão dos encontros.

E chegamos nas duas faixas que fecham o disco:

“Me deixe mudo”, de Walter Franco e “Sinal Fechado”, de Paulino da Viola. “Me deixe mudo”, de Walter, é um rock, talvez um reggae, com letra de desamor, que diz apenas “Não me pergunte, não me responda / não me procure, e não se esconda”. E finaliza contra a censura “Fique calada, me deixe mudo”.

Fechando o disco, “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola. A letra é uma crônica, um diálogo apressado, sufocante, de encontro casual no meio do trânsito, os dois parados num sinal vermelho. Em plena ditadura, foi um grito de revolta e realidade pesada, a confirmação de que o sinal estava, o movimento estava bloqueado no Brasil.

“ACORDA AMOR”, OUTRO DRIBLE NA CENSURA

Pois então, não esqueci, não!

Essa música tornou-se mais um clássico na obra musical de Chico Buarque. Após o autoexílio, na Itália (de janeiro de 1969 a março de 1970), o autor foi totalmente censurado pelo governo militar brasileiro.

No retorno, todas as músicas do novo disco foram proibidas. Chico – sempre guerreiro e genial -, buscou compositores que sempre amou e gravou um LP apenas com outros autores. Mas a exceção veio à tona apenas bem depois: a canção “Acorda amor”, assinada na obra por Leonel Paiva e JULINHO DA ADELAIDE.

Sim, a canção foi composta e gravada por Chico Buarque, que assinou com o pseudônimo de JULINHO DA ADELAIDE. Enganou novamente a censura como em tantas outras músicas, a maior delas “Apesar de você”.

A letra é no alvo. Samba popular com cena de crônica barra pesada do Brasil anos 70. Narra a situação de um camarada que acorda de um pesadelo e fala para a companheira: “Sonhei que tinha gente lá fora / batendo no portão, que aflição”. Era a polícia, a “cana dura”, motivo pelo qual o cara grita desesperado: “CHAME O LADRÃO”. E não era pesadelo, era situação real e muito “comum” na ditadura quando a polícia “especial” – o DOPS e o DEIC – invadiam as casas de pessoas “suspeitas”, “terroristas” no dizer deles e sequestravam, levavam as pessoas para nunca mais.

Chamar o ladrão era bem melhor: a derradeira saída.

Então, queridos leitores/leitoras e cumplices dessa viagem no tempo e na História. Poderia escrever por horas e horas apenas sobre este disco de 74, de Chico. Imagine então se pegarmos o “COSNTRUÇÃO” (1971), que é – para mim – a obra máxima do Chico músico?

Deixe aqui alguns links para pesquisas. Na próxima crônica “musica”, falarei um pouco sobre o disco da eluminação, saindo do sufoco, mas ainda sob censura: “Meus Caros Amigos”, de 1976.

Até lá!

………………………………..

1. Disco “Sinal Fechado” 1974:
https://www.youtube.com/watch?v=xpDj9qrWvy8&list=PLrt7VbxNS8rcmaRegFrxJzpy_h4UWjTHv

2. Documentário Chico e a Literatura:
https://youtu.be/hsDNF4hbx0c?is=xd6ODQzD-xYsJ1Je

3. Documentário Chico e o Cinema:
https://youtu.be/jAWVkvSQNE0?is=WkiccpKYopksDQ9d

4. MATINAL: Chico, Disco a Disco:
https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/ensaio-parentese/chico-disco-a-disco-sinal-fechado/

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador. Desde os anos 60 bebe as vertentes da obra de Chico Buarque em música, literatura, teatro e cinema. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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