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Cebolas

A viúva não-praticante

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Arlete esbarrou em Danilo por acaso. Por acaso, começou a namorar o sujeito. Não foi paixão arrebatadora e, também por acaso, ela se deixou levar até o altar.

Por costume, Arlete engravidou e deu à luz. Uma menina. Uma linda menina. Maria Júlia. Quando deu o tempo, quis retornar ao trabalho. No entanto, por costume, foi dissuadida da ideia por Danilo. A princípio, a mulher considerou aquela proposta tentadora.

— Já pensou, minha flor? Você nunca mais vai precisar se matar de trabalhar por ninharia.

Arlete, por intuição, evitou nova gravidez. Que o mundo já era deveras incerto para se ter mais do que um filho.

A mulher praticamente não saía do lar, doce lar. Sem ter com quem confidenciar, despejou suas angústias sobre a ainda pequena Maria Júlia. De tanto se abrir com a filha, acabaram íntimas.

Aos quinze, os lábios de Maria Júlia se fizeram presentes pela primeira vez.

— Mãe, por que a senhora não se separa do pai?

— O quê?

Divórcio, Arlete não queria. Não depois que o casal conquistou a tão almejada vida de classe média. Sim. Classe média.

Certa manhã, enquanto descascava cebolas na cozinha, Arlete imaginou ter ouvido uma voz. Seria Maria Júlia? Ela se virou, foi até o quarto da adolescente. Não, a filha ainda não havia retornado da escola.

— Mata ele.

— Quem é que está falando?

— Vai, mata ele, sua boba.

Arlete arregalou os olhos, vasculhou todo o apartamento. Nada. Ninguém.

— Seu eu fosse tu, matava ele.

— Quem é você?

— Sabia que ele te trai com a Elvira?

— Elvira? A chefe do Danilo?

— Pois é, Arlete. Tu é corna e fica aí com dó de acabar com o cretino.

— Não é possível. Depois de tudo o que eu fiz pra ele? E com a Elvira?

— Mata ele! É fácil. Coloque veneno na marmita do canalha.

— Veneno?

— É! Tem veneno de rato na despensa.

— Não.

— Não?

— Se fosse em outros tempos… Hoje em dia não dá.

— Por que não, Arlete?

— Vão investigar. Não dá. Vou acabar na prisão. Veneno está fora de cogitação.

— Hum… Que tal mandar mexer no freio do carro?

— Também não. O Danilo leva a Maria Júlia pra escola antes de ir pro trabalho.

— Hum… Já sei!

— Como?

— Que tal você provocar um enfarto no Danilo?

— Mas como faço isso?

— Exageros, Arlete. Exageros.

— Não entendi.

— Entupa o porco de comida, de sobremesa, de álcool. Fartura de… Você sabe, né?

— Ih, esquece! Prefiro dar um tiro na cara do Danilo.

A conversa foi interrompida por um telefonema. Era do trabalho do Danilo. Distraído, o homem não percebeu que o elevador estava nivelado com o piso. Caiu no fosso. Pobre Arlete. Enviuvou.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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