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Nova estrelinha

Saudades deixadas por meu amigo carioca Loyola

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Ray Cunha - Foto de Arquivo

Meu amigo carioca partiu para o azul cobalto de Copacabana, naquele momento da tarde em que o céu deságua no mar. Ele tinha a idade de quando somos imortais, 21 anos, e eu, 18, quando o conheci. Luiz Antonio Loiola de Matos, Luiz Loyola. Quero dizer à sua amada, Angela Loyola, à sua princesa, Clara, e ao seu herdeiro, Gabriel, que a vida, aqui na Terra, é mesmo rápida; o bom, mesmo, começa na quinta dimensão. A coisa é tão rápida que conheci Loyola em 1972, e parece que foi ontem.

Na época, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães trabalhava na White Martins, filial de Jacaré, bairro da Zona Norte do Rio, e conseguiu para mim uma vaga de contínuo; logo depois, fui promovido a auxiliar de venda. Às sextas-feiras, principalmente na primeira sexta do mês, Tadeu e eu saíamos para beber. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel, quando conheci o irmão dele, Luiz Loyola, Lula, e fizemos o Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comédia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo.

A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena, no Largo da Carioca. Loyola fez um dos coveiros; o outro, era eu.

O quarto do Loyola era chamado de BOE (Boite Onda Estudantil), onde, nas palavras do próprio Loyola, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no início da década de 70.

“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolê cor roxa e sapatos bicolores vermelhos e amarelos. A figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell… em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Loyola.

Os sapatos bicolores foram presente do artista plástico amapaense Abenor Pena Amanajas, que então morava no Rio, e a Iara Picanço foi a primeira esposa do Luiz Tadeu, mãe da minha querida amiga Luciana, afilhada do Luiz Loyola.

Na mesma época do curso de teatro, começamos a leitura e laboratório da peça Miolo de Pão, do Loyola, “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – segundo o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire.

Certo dia, ensaiamos no casarão em Vila Valqueire. Insistiram para que eu fumasse maconha e resolvi experimentar. Foi a primeira e única vez. Comecei a me sentir do jeito que imaginamos um astronauta na lua e minha pressão baixou. Era uma tarde ensolarada e resolvi sair. Ninguém se importou com isso e saí sozinho. Lembro-me de que eu andava como um astronauta, com sapatas pesadas para não flutuar. Resolvi ir para a casa do Loyola, em padre Miguel. Peguei um trem errado, retornei à Central do Brasil e consegui chegar em Padre Miguel lá pelas 22 horas.

Jamais esquecerei aquela noite. Eu estava faminto. O Loyola me convidou para irmos à cozinha e saboreamos bolo, pães e cuscuz com café, preparados por dona Maria Amélia, mãe do meu amigo carioca. Lembro-me que comecei a degustar uma banana declamando versos de Xarda Misturada, “dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registrou Loyola. XARDA MISTURADA é um livro de poemas de Joy Edson, José Montoril e eu, publicado em 1971, em Macapá/AP, minha cidade natal.

Eu morava na Rua República do Peru 210/204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro, em Copacabana, mesmo endereço do Itabaraci Nunes Batista, irmão do músico amapaense Aimorezinho, que aparecia lá de vez em quando. Na White Martins, comecei a fazer um house organ da filial, o que me granjeou muito prestígio. Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa e andamos nos encontrando nos teatros. Ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional um convívio bastante agradável.

Um dia, Loyola foi me visitar. Ele mesmo escreveu: “Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 1970, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril; driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e, serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta fez uma citação irreverente dizendo que Copacabana era uma enorme cama…” – Luiz Loyola mergulha mais naqueles anos dourados, referindo-se ao poema Essa Copacabana Triste Mulher, publicado no livro DE TÃO AZUL SANGRA.

Demorei apenas dois anos no Rio e voltei para a estrada. Foi minha fase on the road. Durou até 1982. Foi mais ou menos nessa época que recebi, em Belém, onde estava morando, uma visita do Loyola e a Angela. Estavam visitando a Amazônia e tinham ido à ilha de Marajó. Recebi-os em casa. Foi estranho e eu nunca tive a oportunidade de explicar a estranheza ao Loyola, pois sempre quis fazer isso pessoalmente. Eu estava me separando da minha primeira esposa e acho que o Loyola e a Angela perceberam que algo ia errado. E ia mesmo. Acho que eu andava dopado.

Logo depois disso voltei ao Rio. O Loyola comemorou o aniversário dele em Pedra de Guaratiba e o Luiz Tadeu e eu pintamos, lá. Foi uma imensa bebedeira, com a famosa batida do Primo, de Olinda, mais ao norte de Padre Miguel, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu, cantor maravilhoso. Dessa vez, minha estadia no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo.

Nos anos 1990, fui novamente ao Rio, quando o pintor Olivar Cunha expôs em um espaço em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e Luciana, e Luiz Loyola.

Em 1992, fui ao Rio para lançar o livro de contos A GRANDE FARRA. Foi uma estadia etílica. Encontrei-me, é claro, com meu amigo carioca.

Em 2000, participei da Bienal do Livro, com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS. Naquele ano, em uma manhã de domingo, eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana, quando houve o primeiro arrastão televisionado – cenas aterrorizantes. Eu vivia mergulhado em um sonho etílico. Encontrei-me com Loyola, mas não me lembro de nada.

No dia 2 de fevereiro de 2024, um sábado, autografei o romance-reportagem JAMBU no restaurante Belém Belém Amazônia, templo da cozinha paraense no Rio de Janeiro, na Avenida Rainha Elisabeth da Bélgica 122, Loja A. Essa via liga as avenidas Atlântica, em Copacabana, na altura do Posto 6, à Vieira Souto, em Ipanema. Loyola não foi, porque estava em São Paulo, nem o Luiz Tadeu, que estava em Macapá. Mas Luciana foi.

Desde que comecei a frequentar o Facebook revia meu amigo carioca, de vez em quando, e até trocávamos um alô. Ele me chamava de poeta. Loyola era um doce, um querido amigo. Meu amigo carioca. Imagino-o saltando da Pedra da Gávea, ou do Cristo Redentor, ou do Pão de Açúcar, de asa delta, rumo ao azul.

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