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Marina Dutra

Atribuir a alguém a própria felicidade é um gesto arriscado

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Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

Amar é compartilhar a vida. Depender do outro para ser feliz é entregar a ele uma responsabilidade que nunca será dele.

Existe uma ideia que, durante muito tempo, foi romantizada: a de que encontraremos alguém capaz de nos completar. Filmes, músicas e histórias de amor reforçaram a crença de que existe uma pessoa destinada a preencher todos os nossos vazios e transformar nossa vida em um estado permanente de felicidade.

Mas a realidade costuma ser bem diferente.

Relacionamentos saudáveis não acontecem quando duas metades se encontram. Eles acontecem quando duas pessoas inteiras decidem caminhar juntas.

O problema começa quando colocamos no outro uma responsabilidade que nunca deveria ser dele: a de sustentar nosso bem-estar emocional.

É claro que quem amamos influencia nossa vida. Um abraço conforta. Uma palavra acolhe. A presença de alguém querido pode tornar os dias mais leves. O afeto existe justamente para ser compartilhado.

Mas existe uma grande diferença entre compartilhar felicidade e depender dela.

Quando acreditamos que nossa paz depende exclusivamente da presença, da atenção ou das escolhas do outro, deixamos de viver um relacionamento para viver uma relação de dependência.

A partir desse momento, qualquer mudança de comportamento gera medo. Uma mensagem que demora a chegar se transforma em ansiedade. Uma discussão parece anunciar o fim. Um afastamento é vivido como abandono.

Sem perceber, a felicidade deixa de morar dentro de nós e passa a depender de fatores que não controlamos.

É justamente por isso que tantas pessoas permanecem em relacionamentos que as fazem sofrer. Não porque não enxerguem o problema, mas porque acreditam que perder aquela pessoa significa perder a própria capacidade de ser feliz.

Na prática terapêutica, essa é uma das dores que mais aparecem.

Pessoas que deixaram de cultivar amizades, abandonaram projetos, esqueceram dos próprios sonhos e passaram a organizar toda a vida em função do relacionamento. Aos poucos, deixaram de saber quem eram sem a presença do outro.

E quando esse vínculo termina, não sentem apenas a dor da perda. Sentem como se tivessem perdido a própria identidade.

Talvez por isso seja tão importante compreender que felicidade não é algo que alguém entrega.

Ela nasce da forma como construímos nossa relação conosco mesmos.

Quem desenvolve autoestima, propósito, vínculos saudáveis e aprende a apreciar a própria companhia encontra no relacionamento um espaço de troca, e não de sobrevivência emocional.

Isso não significa que não vamos sofrer quando alguém importante vai embora. O sofrimento faz parte da experiência humana. Amar também é correr o risco da perda.

A diferença é que uma pessoa emocionalmente saudável sofre pela ausência de quem ama, mas não perde a si mesma nesse processo.

Ela entende que relacionamentos acrescentam, inspiram e transformam, mas não podem ocupar o lugar daquilo que cada pessoa precisa construir dentro de si.

Talvez uma das maiores demonstrações de amor seja exatamente esta: estar ao lado de alguém por escolha, e não por necessidade.

Porque quando duas pessoas inteiras caminham juntas, elas não vivem tentando preencher vazios uma da outra.

Elas compartilham aquilo que já existe dentro delas.

E essa é uma forma de amar muito mais leve, madura e verdadeira.

Antes de perguntar quem pode fazer você feliz, talvez valha a pena perguntar: o quanto da sua felicidade ainda está nas mãos de alguém?

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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

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