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Odisseia

A greve das sereias

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Certa vez observei que escrever contos era receber um Ulisses rápido, prender-me ao mastro e ignorar as sereias que me instigam a escrever sobre a Bozomilícia política e por aí vai. O que me remeteu a esse episódio da Odisseia. É um dos mais marcantes do poema: Ulisses (Odisseu) é amarrado no mastro para ouvir o canto das sereias sem se lançar nas águas, enquanto os marinheiros entopem os ouvidos com cera e continuam a conduzir o barco.

Sei que muita gente boa já escreveu sobre Ulisses e as sereias, mas dou meus pitacos sobre o que aconteceu depois que o navio deixou-as pra trás.

Alguns esclarecimentos.

A Odisseia narra, depois da guerra de Troia, contada na Ilíada, as aventuras de Odisseu, também conhecido por Ulisses. Ilíada e Odisseia são poemas atribuídos ao grego Homero, um dos criadores da literatura ocidental, que teria nascido no século 10 a.C.

Tálassa é a designação grega para o mar Mediterrâneo. Homero menciona a “Tálassa cor de vinho”, vai saber se ele era daltônico ou se o Mediterrâneo mudou de cor.

Os aqueus, vencedores da guerra de Troia, eram os antepassados dos gregos. Os troianos, bem, eram os troianos.

Então vamos à fábula.

Cena 1

Ulisses soltando-se das cordas e sacaneando a tripulação com uma cantiguinha:

– Ouvi as sereias, cês não ouviram, ouvi as sereias, cês não ouviram…

Os três marinheiros, rosnando em voz baixa:

– Esse fiodeumaégua tá tirando uma com a nossa cara.

– Tudo bem, a tálassa é grande, na próxima a gente ferra esse corno.

– Falô, brother.

Cena 2

As sereias, exaustas de tanto cantar.

Sereia 1 Estou rouca, estou morrta, e aqueu nenhum pulou na tálassa.

Sereia 2, parafraseando e mesclando canções.

– Cantei, cantei, como é cruel cantar assim. Mas nasci para cantar, pra que negar?

Sereia 3, tentando consolar as outras.

– Tudo bem, peixinhas, nossas irmãs nos vingarão.

Porque, não sei se vocês sabem, não lembro se Homero contou nem se os filósofos exploraram o fato, as sereias, pelo menos as do tempo de Ulisses, se comunicavam telepaticamente. E todas da tálassa cor de vinho – o trecho grego do Mediterrâneo – já sabiam o que havia acontecido, e estavam à espera.

Dois dias depois, Ulisses avistou três sereias reclinadas languidamente em um rochedo.

– Sereias a estibordo! Rápido, homens, amarrem-me ao mastro!

Mas os marinheiros foram mais rápidos e ataram-se eles próprios ao mastro. Um deles apontou para a bandeja de cera e falou:

– Pode encher as orelhas e o cu de cera, patrão.

Só que as sereias não cantaram (essa parte sei que alguns filósofos exploraram, o que vem a seguir, nem tanto). Em meio ao silêncio, os marinheiros soltaram-se do mastro, conduziram o barco até perto do rochedo e falaram:

– E aí, beleza? Partiu serenata?

Estava um sol de rachar miolos troianos e aqueus, mas Homero e este humilde escriba usamos e abusamos de licenças poéticas.

Encantadas por seu canto ser valorizado, as sereias mandaram ver. Os marinheiros, enlouquecidos, pularam na tálassa (perto do rochedo era rasinho) e correram para as peixinhas. Seguiu-se uma chupação desenfreada, pois as sereias têm handicaps anatômicos evidentes para papai e mamãe e outras coisinhas, e sua oralidade vai muito além dos cânticos maviosos/perigosos. Ulisses, emburrado, tentando tirar a cera dos ouvidos, foi o único a não beijar na boca, chupar peitinhos, dedilhar escamas e a não ter outras partes do corpo manuseadas e depois saboreadas com sal de tálassa e azeite aqueu de oliva, como se fosse uma alcachofra.

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