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Crônica 2

Chico Buarque: “Meus Caros Amigos” (1976)

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

Confira a Crônica 2

Conforme o prometido aqui na publicação anterior da Crônica 1 (Disco “Sinal Fechado” – 1974), agora vamos para o ano de 75/76. Pois então, pesquisar, ouvir e refletir sobre a obra de Chico Buarque de Holanda é uma paixão, um doce vício que pode concretizar o infinito.

Vamos lá?…

1. Quando, em 75, Chico entrou em estúdio para gravar o álbum que seria lançado em 1976 pela gravadora Philips com o título “Meus caros amigos”, o sinal ainda estava fechado para os compositores da MPB que denunciavam os horrores da ditadura militar brasileira através de letras escritas com alusões e metáforas engenhosas.

Cantor e compositor revelado em 1964, projetado nacionalmente em 1966 e auto exilado em 1969, para escapar de prisão iminente, Chico tinha se tornado na década de 1970 o alvo preferencial deste governo ditatorial.

O simples nome do artista nos créditos de uma composição já era motivo bastante para que os censores pusessem na letra o carimbo de “vetado”. Tanto que, em 1974, Chico teve que criar maroto pseudônimo, Julinho da Adelaide, para driblar a censura e poder incluir um samba autoral (“Acorda amor”, creditado a Julinho e a Leonel Paiva) no repertório do álbum anterior de estúdio, “Sinal fechado”, disco de intérprete, única saída possível naquele momento.

2. “Meus caros amigos”, o álbum de 1976, trouxe o Chico compositor/letrista de volta. E que retomada! Com repertório povoado por temas criados pelo compositor nos últimos anos para trilhas sonoras de filmes e musicais de teatro, o álbum “Meus caros amigos” assim com o “Construção” , é divisor de águas.
Assim como “Construção” 1971, o álbum “Meus caros amigos” -1976, traz somente grandes e memoráveis canções, dignas de qualquer antologia do artista. Começa com “O que será (À flor da terra)”, tema do filme “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), ouvida com a mais famosa das três letras em gravação feita por Chico com Milton Nascimento.

Na sequência, Chico canta “Mulheres de Atenas”, “Olhos nos olhos”, relembra canções da trilha sonora da peça “Calabar – O elogio da traição” (1973), composta por Chico com Ruy Guerra.

No meio do disco, Chico se diverte cantando o samba “Vai trabalhar, vagabundo” (1975), música-título do filme lançado pelo diretor Hugo Carvana (1937 – 2014) no ano anterior. E a obra-prima – para mim – do disco é o samba “Corrente”, * que será tema central de uma próxima crônica musical aqui, prometo!

Há canções-poesias delicadas e eternas em parceria com Francis Hime, “A noiva da cidade”, “Passaredo” e “Meu caro amigo”.

O disco traz outra obra-prima, a cantiga infantil “Boi da cara preta”, ouvida com coro feminino que incluía as vozes de Bebel Gilberto, Miúcha (1937 – 2018) e Olivia Hime.

Na música que encerra o disco, com melodia de Francis, a letra aparece na forma de carta escrita por Chico e enviada ao amigo Augusto Boal, então no exílio, com notícias de um Brasil em que a “coisa tá preta” e é preciso fazer “muita careta pra engolir a transação”.

O samba-choro dá nome, com o título no plural, a esse memorável álbum de 1976 em que Chico Buarque também canta “Basta um dia”, canção dramática composta para a trilha sonora da peça “Gota d’ água” (1975), escrita pelo próprio Chico com o dramaturgo Paulo Pontes (1940 – 1976) e estreada no ano anterior pela atriz Bibi Ferreira (1922 – 2019).

3. Mesmo que reúna repertório de diversas procedências, “Meus caros amigos” é um álbum que exprime coerência e unidade. Ouvindo e analisando, mais de 50 anos depois, o disco conserva uma beleza que já se prova atemporal, ainda que várias letras tenham sido escritas sob a força das circunstâncias de época em que o sinal estava fechado para a liberdade de expressão. Vivíamos em plena ditadura cívico-militar no Brasil.

É o Chico das artes, o poeta-Buarque.

Chico é mesmo extraordinário e infinito. 

1.Disco “Meus Caros Amigos” – 1976:
https://www.youtube.com/watch?v=fK7LZbLsNMk&list=PLItd1GiqTiJTejtNEbWtcHnyf6ZnZUIuX
 

2. Documentário Chico e a Literatura:
https://youtu.be/hsDNF4hbx0c?is=xd6ODQzD-xYsJ1Je

3. Documentário Chico e o Cinema:
https://youtu.be/jAWVkvSQNE0?is=WkiccpKYopksDQ9d

4. MATINAL: Chico, Disco a Disco:
https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/ensaio-parentese/chico-disco-a-disco-sinal-fechado/

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador. Desde os anos 60 bebe nas vertentes da obra de Chico Buarque em música, literatura, teatro e cinema. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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