Curta nossa página


Escovão lava dinheiro

Cristiano inverte papel de Robin, tira de pobre e dá para rico corrupto

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Reprodução

No Metrô da eleição de Brasília, está faltando dinheiro para Jéssica e sobrando milhões para corruptos. Notibras, seguindo o trilho dos rumores, descobriu que uma comissionada que recebia pouco mais de R$ 5 mil perdeu o emprego em meio a relatos de pressão eleitoral; enquanto isso, contratos milionários bancados pelo dinheiro público merecem explicações. Vive-se na capital da República mais um capítulo que consegue transformar a ironia em método administrativo. E, em ano eleitoral, parece que até o dinheiro público aprende a escolher companhia, onde tostões são tratados com mão de ferro e milhões, com luvas de seda.

É nesse tabuleiro que surge o caso de Jéssica, funcionária de nível médio que ocupava cargo comissionado no Metrô, onde recebia pouco mais de R$ 5 mil mensais. Segundo relatos que circulam nos bastidores da companhia e que precisam ser formalmente esclarecidos pela direção do Metrô, Jéssica teria sido dispensada depois de não se enquadrar naquilo que parece ter virado uma nova especialidade funcional, correspondendo a ficar à disposição para enfrentar o sol de Brasília e participar de atividades políticas em favor da candidatura de Cristiano Araújo (MDB) a deputado distrital.

Há, porém, um detalhe que torna a história ainda mais grave. Jéssica estaria grávida. E, segundo as informações apresentadas sobre o episódio, não se trata de uma gestação comum, mas de gravidez de alto risco, condição que teria sido comprovada por documentação médica. Se essas informações forem confirmadas, o problema deixa de ser apenas político e passa a exigir explicações administrativas muito sérias.

Porque cargo público não pode virar cabo eleitoral com contracheque, e gravidez de risco não deveria precisar disputar espaço com bandeira de candidato. A pergunta que o Metrô-DF precisa responder é simples: qual foi, exatamente, a razão da exoneração de Jéssica? E mais: houve ou não orientação para que ocupantes de cargos comissionados participassem de atividades eleitorais? Quem deu essa orientação? Houve cobrança de presença? Houve lista? Houve algum tipo de consequência para quem não participou?

São perguntas que não condenam ninguém, mas o silêncio diante delas também não ajuda ninguém. O episódio ganha contornos ainda mais incômodos quando colocado ao lado de outra história envolvendo Cristiano Araújo. É o caso de documentos e uma representação encaminhada ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, conforme reportagem publicada pelo Vero Notícias, que colocaram sob questionamento mais de R$ 15,5 milhões em recursos públicos destinados em 2026 (e mal passamos da metade do ano) a projetos relacionados ao grupo empresarial que tem o portal Metrópoles como principal ativo.

Entre os projetos citados estão Metrópoles Endurance, Constelações Contemporâneas, Metrópoles Catwalk, Capital Strike – Guerra Infinita e BSB Fight 4. A reportagem afirma que a representação questiona justamente o modelo utilizado para a destinação dos recursos. Isso não significa, por si só, que tenha havido ilegalidade, mas que há dinheiro público em volume suficiente para justificar lupa, transparência e explicações.

As investigações a cargo de Notibras indicam que a fotografia política fica desconfortável. De um lado, uma trabalhadora comissionada, salário pouco superior a R$ 5 mil, que, segundo a denúncia, apresentou justificativa médica relacionada a uma gravidez de alto risco e acabou fora do emprego. Do outro, mais de quinze milhões de reais envolvidos em projetos que agora são objeto de questionamento apresentado ao Ministério Público.

A situação fica mais complicada quando surge nessa história um personagem cujo passado político não pode ser varrido para debaixo do tapete dos milhões. Luiz Estevão, dono do Metrópoles, não chegou ao noticiário nacional apenas como empresário bem-sucedido. Chegou também pela porta dos fundos da República. Eleito senador pelo Distrito Federal, tornou-se, em 2000, o primeiro senador da história do país a perder o mandato por cassação. Anos depois, foi condenado pela Justiça Federal no escândalo do desvio de recursos da construção do Fórum Trabalhista de São Paulo, esquema que teve como personagem central o então juiz Nicolau dos Santos Neto, o célebre “Lalau”.

Luiz Estevão acabou preso para cumprir pena que, somadas as condenações, ultrapassava três décadas. É esse passado político, judicial e carcerário que torna ainda mais necessário explicar, centavo por centavo, por que projetos ligados ao grupo empresarial comandado por ele aparecem como destinatários de milhões dos cofres públicos do Distrito Federal. O Ministério Público precisa mostrar que dinheiro público não tem memória curta e que Brasília, definitivamente, não deveria ter.

A administração pública não pode possuir uma calculadoras implacável para contar os cinco mil reais de quem está na base e outra extraordinariamente generosa quando começam a aparecer seis ou sete zeros. É por essas e outras que nos corredores do Metrô, a mordacidade dos servidores já produziu um apelido para Cristiano Araújo: “Robin Hood ao contrário”.

Trata-se de uma frase é cruel, mas política também se alimenta de símbolos. O Robin Hood da lenda tirava dos ricos para socorrer os pobres. O personagem criado pela maledicência brasiliense faria o caminho inverso, onde aperta-se o pequeno enquanto os milhões públicos encontram destinos muito mais confortáveis. É uma comparação de bastidor, evidentemente, e não uma sentença. Contudo, talvez seja justamente por isso que Cristiano Araújo e a direção do Metrô deveriam esclarecer rapidamente o episódio.

Cristiano, aliás, conhece o Metrô há bastante tempo. Em janeiro de 2019, foi indicado para a Diretoria de Administração da companhia. Anos depois, como secretário de Turismo, seu nome aparece em atos oficiais relacionados a projetos executados pela pasta, inclusive o Metrópoles – Endurance. Tudo isso torna ainda mais necessária a transparência.

Não se trata de condenar antecipadamente quem quer que seja, porém, de perguntar por que uma empresa pública estaria sendo mencionada em relatos de mobilização eleitoral e por que uma funcionária grávida, alegadamente impedida por razões médicas de participar desse tipo de atividade, teria perdido o cargo.

Quem acompanha política sabe que ano eleitoral costuma provocar fenômenos curiosos na máquina pública. De repente, funcionários descobrem uma inesperada paixão por caminhadas, comissionados desenvolvem vocação espontânea para carregar bandeiras, assessores passam a considerar reuniões partidárias quase uma extensão natural do expediente e chefias descobrem que determinados servidores são extraordinariamente “comprometidos” justamente quando aparecem nas fotografias certas, nos eventos certos, ao lado dos candidatos certos.

Abra o link a seguir

Transparencia Jessica

É exatamente por isso que existe uma fronteira que não pode ser apagada, onde deve ficar claro que servidor é servidor e militante é militante. Quem deseja fazer campanha política deve fazê-la como cidadão, voluntariamente e fora das obrigações funcionais. O salário pago pelo contribuinte não compra voto, militância, bandeira nem aplauso, e muito menos pode comprar silêncio.

Se Jéssica foi exonerada exclusivamente por critérios administrativos, que o Metrô apresente os critérios; se não houve pressão para participar da campanha de Cristiano Araújo, que a direção diga isso claramente; e, se houve, que se descubra quem transformou uma companhia pública de transporte em eventual estação de embarque eleitoral. Porque Brasília já conhece suficientemente bem a promiscuidade entre máquina pública e projeto político. Está implícito, assim, que o contribuinte não precisa financiar mais essa viagem, especialmente quando o bilhete custa milhões para encher os cofres de corruptos.

……………

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.