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Pessoas funcionais

A obrigação de estar bem

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma pressão silenciosa para transformar a própria vida em uma sucessão de acontecimentos positivos.

“Como você está?”

“Estou bem.”

Mesmo quando não estamos.

A resposta tornou-se quase automática.

Vivemos em uma cultura que gosta de pessoas funcionais.

Que trabalham.

Produzem.

Respondem.

Sorriem.

Continuam.

O sofrimento, desde que breve e esteticamente aceitável, pode até ser tolerado.

Mas sofrer demais incomoda.

É como se a tristeza precisasse apresentar justificativa.

Durkheim nos mostrou que até aquilo que sentimos individualmente possui dimensões sociais. Talvez por isso nossas emoções também sejam reguladas por expectativas coletivas.

Há momentos em que não queremos estar bem.

Queremos apenas não precisar fingir que estamos.

E isso deveria ser permitido.

Nem toda tristeza é doença.

Nem toda pausa é fracasso.

Nem todo cansaço exige uma frase motivacional.

Às vezes precisamos simplesmente de tempo.

A sociedade tem uma relação estranha com o sofrimento: quando alguém está mal, queremos rapidamente transformar aquilo em aprendizado.

“Vai passar.”

“Você vai sair mais forte.”

“Tudo acontece por uma razão.”

Talvez.

Mas algumas coisas simplesmente doem.

E reconhecer isso não significa desistir da vida.

Significa respeitar sua complexidade.

A felicidade não precisa ser permanente para ser verdadeira.

Assim como a tristeza não precisa ser eterna para ser legítima.

Talvez viver bem seja justamente permitir que a vida tenha mais de uma tonalidade.

Porque ninguém é feliz o tempo inteiro.

E quem diz que é provavelmente está fazendo um excelente trabalho de gestão de imagem.

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