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O que você faz?

Trabalho não é sinônimo de prova da existência

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Há uma pergunta que assusta:

“O que você faz?”

Como se a profissão fosse uma espécie de resumo oficial da pessoa.

Sou professora.

Sou médica.

Sou advogado.

Sou pesquisadora.

Sou empresário.

E, depois disso, quase nada.

É curioso como o trabalho ocupou tanto espaço na identidade contemporânea que, quando perguntamos quem alguém é, frequentemente queremos saber o que essa pessoa produz.

Marx provavelmente não ficaria surpreso.

O trabalho não organiza apenas a economia. Organiza também identidades, relações e hierarquias.

O problema aparece quando começamos a acreditar que nosso valor é proporcional à nossa produtividade.

Descansar vira culpa.

Férias precisam ser merecidas.

Tempo livre precisa ser justificado.

Até o lazer precisa ser produtivo.

Lemos para aprender.

Corremos para melhorar a saúde.

Viajamos para acumular experiências.

Dormimos para produzir melhor amanhã.

Em algum momento, talvez precisemos perguntar:

quando foi que viver virou preparação para trabalhar?

Existe algo profundamente humano em fazer coisas sem finalidade econômica.

Conversar.

Andar.

Cozinhar.

Ler.

Ouvir música.

Olhar pela janela.

Ficar sem fazer nada.

Talvez o ócio seja uma das últimas áreas da vida ainda não completamente colonizadas pela produtividade.

E talvez seja justamente por isso que incomode tanto.

Porque, quando não estamos produzindo, precisamos finalmente descobrir quem somos sem o crachá.

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