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Duelo

Das Flores

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

A morte de Marilda das Flores parou a pequena vila. A morte – na flor da idade, 39 anos – e o sepultamento, viraram “febre” e pararam tudo naquele final de semana.

Conhecida desde menina na comunidade, cresceu como vendedora de flores cultivadas pela avó, dona Zefa Benzedeira. Marilda cresceu, virou uma linda mulher, namorou e casou com o Pedro Pimenta. Foram anos de amor invejado por toda vila. Até que um mal súbito tirou de maneira fulminante a vida dela.

O caixão de Marilda desfilou pela única avenida central – de terra batida – do vilarejo de Brejo Mole, com todos os ingredientes característicos de um ritual popular. Gente chorando, pessoas com seus filhos e filhas carregando cestos de flores em homenagem e lembrança da “menina/mulher” que dedicara toda a vida dela a esse ofício.

Porém, na chegada ao cemitério, cova aberta e tudo preparado para o sepultamento, o clima de homenagens e harmonia começou a azedar.

Juntos, em lados opostos do caixão, Pedro Pimenta, o marido viúvo e Honório Pitombeira, o conhecido “papa fêmea”, sedutor de arrabalde tinham os olhos fixos no caixão. Climão de confronto e expectativas, pois todos sabiam do ódio mortal entre os dois.

A vó Zefa já havia morrido anos antes, caso contrário, a situação estaria controlada. Vó Zefa colocava sempre ordem na bagunça e desavenças locais. E o conflito entre os dois homens já era conhecido – e fofocado – desde sempre na vila, da sacristia do padre Melo, passando pelo botequim do Maneca, indo até a Casa da Nilda -a da luz vermelha – que funcionava como uma pequena boate/permissiva frequentado pelos homens da região.

Coveiros com as cordas amarradas nas quatro alças de cantos do caixão. Prontos para o movimento final. Explode o grito desesperado de Honório Pitombeira, o amante “nunca assumido” de Marilda das Flores:

— Nãooooo! Não aguento mais! Deus meu … Eu quero ir com você, Marilda, meu único amor! Me larga… me larga… Eu vou com ela!!! -, e rasgando a camisa, arrancando os botões, o homem conquistador/garanhão da Vila do Brejo Mole buscava se jogar para dentro da cova sobre o caixão de Marilda.

Pedro Pimenta, sempre discreto e silencioso, teve reação radicalmente contrária. Desferiu um soco certeiro no queixo de Honório, que ainda conseguiu devolver – com outro soco na cara de Pedro -, a agressão real. Meio enroscados, os dois se esparramaram sobre o caixão, à sete palmos -, selando pela primeira vez “um encontro à três” entre Marilda, Pedro e Honório.

A vila inteira estava ali e imediatamente a situação virou praça de guerra: metade defendendo o marido/viúvo traído e a outra brigando pelo amante/garanhão desesperado.

Nos anos que se seguiram, a pendenga “histórica” passou a ser determinante na Vila do Brejo Mole. A bipolarização de tudo se estabeleceu: o botequim da turma apoiadora de Pedro Pimenta e o outro dos apoiadores de Honório; a igreja católica de Pedro e a evangélica de Honório; o time de futebol, o Pedreira FC em confronto com o Garanhão do Brejo EC. Até as idas aos bailinhos na Casa da Nilda passaram a acontecer em finais de mana alternados.

No final deste mês, o vilarejo vai comemorar os vinte anos da despedida de Marilda e do inesquecível bafafá. Dizem que, apesar das diferenças, Pedro Pimenta e Honório Pitombeira prometem caminhar juntos, levando flores para acalmar para sempre o tormento da alma da amada Marilda, a “menina/mulher das flores”. Na vida, às vezes, a realidade invade a ficção e mesmo “nem tudo não sendo flores”, pode ser que o perfume e a harmonia do viver ressurjam de surpresa no ar.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador. Escreveu este conto quando ainda cursava o último ano de comunicação social/jornalismo, na Cásper Líbero SP (1982). De quando em quando, fatos parecidos pipocam nas redes da internet. Decidiu adaptar, reescrever, agora, em 2026 e publicar. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, próximo a Florianópolis/SC.

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