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Profissão lucrativa

Falsos altruístas mancham políticos sérios

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Do ponto de vista puramente filosófico contemplativo, as pessoas buscam o poder principalmente porque ele garante autonomia, segurança e controle sobre o próprio destino. Ter poder significa ampliar as escolhas e reduzir a dependência dos outros. Em suma, o domínio funciona como um escudo natural contra vulnerabilidades da vida em sociedade. Do lado psicológico e social, estão o ego, a vaidade e a ilusão de não depender de ninguém. Como querer não é poder, os poderosos normalmente sofrem do terrível mal da sensação profunda de relevância e competência, mas a maioria não consegue controlar sequer a si mesmo.

Se analisarmos a racionalidade e a lógica, não será difícil concluir que o mundo se divide em pessoas que alcançam naturalmente o poder e que, a partir dele, se dedicam à virtude de se preocupar com o bem-estar dos outros de forma desinteressada, ajudando o próximo sem esperar nenhuma recompensa, elogio ou benefício em troca. São os chamados altruístas. Mahatma Gandhi, Irmã Dulce, Madre Tereza de Calcutá, Albert Schweitzer, Angelina Jolie, Bono Voz, Malala e o papa Francisco fazem parte dessa seleta relação.

Metafisicamente, porém, há os que são loucos pelo poder, seduzidos pelo comando e que nascem, crescem e morrem controlados pela faculdade da força. A menos que eu seja convencido biblicamente do contrário, nessa extensa lista podemos incluir, sem margem alguma de erro, Donald Trump, o clã Bolsonaro e boa parte dos candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais ou aos parlamentos brasileiros, todos ávidos por trocar a imunidade pelo excesso de proteção, popularmente conhecida por impunidade, isto é, a ausência de castigo ou punição para quem comete um crime ou viola a lei.

É justamente ela que, conforme textual de Carlos Lacerda, gera a audácia dos maus. Considerando que a sede de controle da nação e da vida alheia é que corrompe as pessoas, a busca pela impunidade acaba sendo sinônimo de estímulo para todos os que buscam o voto para se perpetuar como culpados sem culpa. Resumindo, enquanto aguardo o sinal bíblico, mantenho a convicção de que raríssimos ou nenhum cidadão brasileiro abastado ou vocacionado exclusivamente para as vantagens do poder pensa em se eleger somente para ajudar o próximo.

Como não posso generalizar, devo excluir de minha fumegante imaginação pelo menos aqueles que, de acordo com o tamanho do patrimônio declarado ao Tribunal Superior Eleitoral, parecem verdadeiramente preocupados em servir e não em se servir. Na matemática do TSE, há candidatos à Presidência com bens da ordem de R$ 33 mil, R$ 454 mil e R$ 795 mil, casos, respectivamente, de Samara Martins (UP), Edmilson Costa (PCB e Renan Santos (Missão). Caminhando para seu quarto mandato, Lula da Silva declarou patrimônio de R$ 4,8 milhões, quase metade dos R$ 8,2 milhões de Flávio Bolsonaro, com apenas um mandato de senador. No Distrito Federal, há candidato a governador com patrimônio próximo dos R$ 50 milhões.

Longe de mim querer julgar os ricos ou insinuar, sem provas mais robustas, que a elite só pensa nela e que a política se transformou na profissão mais lucrativa do Estado. Ilações e preocupações à parte, não acho crível que um político com patrimônio superior a R$ 50 milhões lute para se eleger sem objetivos que não sejam os seus. É o chamado retorno líquido e certo do investimento. Infelizmente, no Brasil e no mundo não há um só vivente que acha que político trabalha de graça ou que sonha em ter úlcera, cabelo branco, hérnia de disco, desassossego ou disfunção erétil à toa. Para a maioria do eleitorado, obviamente os agentes públicos não vivem de brisa, mas do nosso trabalho e, sobretudo, do nosso dinheiro.

Sinceramente, é difícil acreditar que o inelegível Pablo Marçal (R$ 7,4 bilhões) e que os presidenciáveis Augusto Cury (R$ 243,2 milhões), Romeu Zema (R$ 178,7 milhões), Ronaldo Caiado (R$ 52,6 milhões) e Wilson Grassi (R$ 50 milhões) estejam realmente dispostos a encarnar o espírito altruísta de Santo Antônio, São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo e Santa Edwiges, tradicionalmente venerados como padroeiros dos pobres. Portanto, em 4 de outubro torcerei para que alcancemos a consciência de que a política não deve ser a arte de dominar, mas sim a de fazer justiça. A corrupção política nada mais é do que uma consequência das escolhas do povo.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978 

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